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A Morte tem muitos olhares

27, dezembro, 2010 Sem comentários

Tenho observado algo nessa nova e impressionantemente grande safra de blogues literários brasileiros é uma reclamação quase que constante por partes dos seus resenhistas/comentadores. Todos eles reclamam de como é dificil resenhar livros de contos.

Curiosamente, eu só tenho essa dificuldade quando o livro é ruim e nenhum conto se salva. Afinal, com tantas histórias ali, pelo menos uma tem que se salvar. Não é?

No caso da coletânea do mineiro M.D. Amado não tive esse problema.

Primeiro, umas palavrinhas sobre o autor. Marcelo Amado é o responsável pelo site Estronho e Esquesito que desde de 1996 vem publicando ‘causos’ estranhos e literatura fantástica na internet.

É, 1996 mesmo. Existia internet naquela época, juro.

Ele prosseguiu com o site aos trancos e barrancos, com pausas e hiatos. Mas o Guardião do Estronho nunca desistiu. E começou a escrever também.

Ano passado, publicou o ebook ‘Empadas e mortes‘ – votado como o melhor ebook de 2009 no prêmio que organizei. O livro serve como aperitivo para a publicação seguinte, que é o ‘Aos olhos da Morte’.

Deu para ver que a irmã mais bonitinha do Morpheus é uma das musas do cara, né?

A escrita é poética, chegando as vezes ao limiar do forçado. Há bons dialogos em alguns dos contos e a construção de cenários é muito boa, consegue levar o leitor a estar na situação.

Na verdade, o grande ‘porém’ do livro é por ser uma coleção de histórias de um mesmo autor sobre um mesmo tema. Isso levar a ter alguns plots e situações repetidos, contados do mesmo jeito, com a mudança de alguns detalhes. Acidentes de carro, por exemplo, são uma dessas constantes, inclusive com algumas descrições muito parecidas. Separados, isso não seria um problema, mas em um livro que os reune isso por vezes cansa o leitor.

Estraga o efeito final? De jeito nenhum. A prosa tende ao poético, como já disse, e por isso tem ritmo, o que acaba conduzindo a leitura. Há personagens carismáticos em situações intrigantes – e a Morte metamorfa, que aparece diferente, por vezes juíza, outras conselheira e até amante. Seu rosto depende do olhar que lhe é dirigido.

Os contos por vezes são mais direcionados a trazer medo, mas alguns tem um tom melancólico e suave, mais voltado a reflexão. Inclusive, em ‘Suzana’, há uma lição de moral mais explícita ao trazer o balanço de vida de uma mulher que viveu sem se preocupar com as consequências finais dos seus atos.

Há histórias de amor entre mortais e a Dama do Fim, relatos dos caminhos que percorremos no pós-Vida, conversas entre amantes que foram separados por ela.

Minha história preferida é ‘Nas areias do Deserto’, que é uma das mais curtas, porém atrai ao recontar uma história conhecida por um angulo bastante peculiar. ‘O som da Morte’ e ‘Um instante de vida’ também se destacam pela segurança da prosa e pela inusitado do que contam. ‘A Igreja’ é contada em forma de causo, concedendo-lhe um tom diferente do resto livro.

Em relação ao contos, o meu ‘porém’ vai para ‘A morte em traços coloridos’, que pede por mais palavras para ser contada. Ficou menor do que deveria, dando a sensação de que não está completa.

Sobre o livro em si, a capa é muito bacana, porém escura demais . Nada de errado nisso, só eu que estou cansada de capas escuras, é pessoal. Ela se beneficiaria se tivesse os detalhes em dourado gravados em relevo – mas isso iria encarecer demais o livro, que pelo conteudo já vale a compra. Para mim, o autor só precisa se libertar de algumas inseguranças. O livro tem quatro depoimentos sobre ele e o seu trabalho, que não seria necessários já que seu texto fala por si só.

Afinal, tem que ter muita audácia para colocar a Morte usando calcinha lilás.

Aos olhos da Morte

Autor: M. D. Amado
Apresentação
: Georgette Silen
Prefácio: Rober Pinheiro
Quarta capa: Miriam Castilho
Introdução: Nine

ISBN: 978-85-63586-02-5
120 páginas

14 x 21cm

Editora Literata / Selo Estronho

Site oficial do livro: www.mdamado.com.br/olhos

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