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Arquivo da Categoria ‘Resenha’

Cá, não há elfos fofinhos.

30, dezembro, 2010 1 comentário

É bem conhecida a minha implicância com Tolkien e ‘O Senhor dos Anéis’ – ei, eu gosto do ‘Hobbit’ e o ‘Silmarillion’, prum rascunho, é bem interessante.

Boa parte disso vem do fato dos protagonistas serem tão bonzinhos e legais… tão gostáveis que para mim soavam como produtos, algo fabricado. Até mesmo o Bilbo, que era um cara bacana no ‘Hobbit’ ficou um babaca no ‘Senhor dos Anéis’.

(Sim, o Bilbo é muito mais legal que o Frodo. Leonard Nimoy nunca fez uma música pro Frodo, vez?

Nimoy canta A Balada de Bilbo Baggins

Vocês achavam que não existia nada pior que o Shatner cantando?)

E assim, minha implicância com o Tolkien se expandiu para o resto da Fantasia Heróica / Épica. Robert Howard? Eu gosto, mas por vezes o machismo ‘Hulk Esmaga’ dele cansa. É, eu sou exigente.

Um belo dia, Mr Barcia me perguntou se eu conhecia Glen Cook. Não, eu não conhecia. Ele tinha acabado de adquirir um volume com a trilogia inicial da ‘Black Company’ e mesmo sem ter lido, achou que eu iria gostar. Até então, ele não tinha errado nenhuma indicação. E acertou na mosca novamente.

Ali não tem escolhas fáceis, ou elfos de emice cheios de melancolia. Nada disso. Todo mundo é meio canalha, meio santo. As ruas são sujas, os caminhos são arduos. Pessoas morrem, boas ou más, amigos se tornam inimigos, e a vida segue. Uma coisa ficou na minha cabeça ‘Queria muito ler um livro brasileiro escrito por alguém que já tivesse tido contato com ESSE tipo de fantasia’.

Sim, porque eu dou um longo suspiro de desânimo toda vez que um jovem autor é entrevistado num blog – ou mesmo em seus perfis na Web – e nem hesita ao dizer que sua maior influência é Tolkien. E nem adianta se perguntar ‘mas além do Tolkien…’. No geral, o que surge é um C.S. Lewis e olhe lá.

Aí no lançamento carioca de ‘Caçadores de Apostolos’, Leonel Caldela começa a falar justamente sobre como ele queria falar sobre pessoas comuns no meio de uma guerra, tendo que tomar decisões que eles mesmos sabiam que não eram as mais acertadas. Na hora, lembrei da Black Company e perguntei se ele conhecia. A resposta positiva me fez comprar o livro com muito menos receio do que estava, afinal não tinha gostado do pouco que li da Trilogia da Tormenta, romances escritos por ele e passados no universo criado pela revista Dragão Brasil.

Não me arrependi.

Antes de mais nada, Caldela tem estilo próprio. Provavelmente amadurecido depois de 3 romances, e que agora já se apresenta firme e bem definido. Os personagens respiram, andam e sangram. A trama religiosa e politica parece palpável, além de ser complexa.

Na verdade, o plot me lembrava demais o do primeiro livro da Black Company. Duas forças opostas, o que seria identificado como o Mal dominando e o Bem sendo aos poucos sufocado.  Porém, conforme o autor vai construindo o seu universo, com um uso bastante maduro de flashbacks e recortes temporais, dá para ver a originalidade da história que nos é mostrada.

Personagens de verdade, carismáticos mesmo quando antipáticos. Cenas de tensão bem construídas. Trama bem amarrada.

Em termos de Fantasia Épica, Leonel Caldela é definitivamente um nome a ser guardado. E que venha o Deus Máquina.

(Ah, sim. A capa é linda. E tem uns errinhos de revisão meio chatos, mas nada que atrapalhe por demais)

(E toda aquela enrolação no começo é só porque eu estava doida por um motivo pra postar o video do Nimoy…)

***

Autor: Leonel Caldela
Formato: 15,5 x 23 cm, 416 páginas, brochura
Preço: R$ 55,00
ISBN: 978858913447-7

A grande baleia branca

29, dezembro, 2010 1 comentário

Posso ser sincera?

Até casar com o Estevão, tudo o que eu lia de quadrinhos nacionais era a Turma da Mônica, alguma coisa do Ziraldo e a tira do Urbano no Globo.

Até vim a descobrir um mundo novo, com coisas muito interessantes. E pude perceber que há muito em comum entre os dois meios, o da Literatura Fantástica e o dos quadrinhos, pelo menos aqui no Brasil.

Por exemplo? O embate entre ser comercial e ser artístico. E a necessidade de se afirmar como Arte com MAISCULA, pompa e circunstância é gritante em Cachalote.

Pelo menos, a arte do Rafael Coutinho vale a pena.

A sinopse no site da Companhia das Letras vende Cachalote como uma graphic novel, um romance gráfico, dizendo que “as tramas são amarradas por temas e subtextos recorrentes”. Tudo muito subjetivo e parecendo uma desculpa pronta para certificar-se de que ninguém posso acusar o album de ser o que ele é: um apanhado de trechos de histórias maiores, incompletos e com nenhuma ligação entre si.

Não é ‘cool’ nem ‘cult’ fazer uma antologia de várias pequenas histórias. Fanzineiros fazem isso. Editoras independentes fazem isso. Para justificar o estarem em uma editora grande, talvez temerosos da acusação de nepotismo, já que Coutinho é filho do grande Laerte, tinham que lançar algo maior. E na área da Arte Sequencial, nada é maior do que a graphic novel, principalmente se de grande porte como está sendo feito lá fora pelos principais Artistas.

As histórias incompletas até poderiam ser interessantes se estivessem completas a ponto de fazerem algum sentido. Assim, recortadas, são muito banais e os dialogos duros demais – parecem cortados de Tarantino ou de qualquer outro diretor cool-moderninho-hypado – não ajudam a criar empatia pelos personagens.

Mas a arte do Rafael Coutinho é muito boa. Pelo menos isso.

***

Foi há alguns anos já, num reino ao pé do mar…

28, dezembro, 2010 1 comentário

Que aconteceu a história que Jim Anotsu revolveu contar.

(Palmas para mim por minha brilhante parafrase de E. A. Poe)

(Obrigada)

(Voltando ao que vim fazer)

Vou contar uma historinha.

Há muito, muito tempo atrás,  existia uma nuvem negra sobre o Fandom brasileiro. Tudo era rabugice e mimimi, ‘ninguém nos ama, ninguém nos publica’.

Até que surgiu a internet… e o mimimi continuou, só que por email. Mas a internet também trouxe uma renovação, uma lufada de vento fresco que começou a soprar aquela nuvenzinha irritante para fora.

Alguns chamaram essa lufada de ‘Terceira Onda’, só para irritar quem já estava de rabugice.

E nas comunidades virtuais, fora do alcance dos tradicionalistas e conservadores, o pessoal mais novo ainda que a tal Terceira Onda começou a fazer burburinho, trocar ideias e falar de trilogias, heptalogias e dominação mundial.

Um belo dia, um desses meninos procurou uma pessoa com um pouco mais de experiência – mas nem tanta que a tivesse contaminado com a nuvenzinha negra – e pediu que ela lesse seu primeiro original. E ela leu.

E ficou muito contente quando, poucos anos depois, recebeu aquele original novamente, mas agora em formato de livro.

Talvez o livro do Jim seja o melhor livro de estreia da literatura fantástica brasileira.

Talvez ele seja o mais próximo que chegamos nos últimos dois anos de nos aproximarmos da vanguarda.

Só sei que é um dos melhores livros que li recentemente. E uma das poucas unanimidades aqui em casa: mamãe leu e gostou, minha irmã também. Até seu Leopoldo achou interessante, apesar da capa rosa.

Ao contar a história de duas irmãs londrinas, Jim quebrou o 1o Mandamento do Fandom Brasileiro: Enfiarás o Brasil no seu livro a qualquer custo.

Não tem Brasil nem Brazil. E essa história de ‘se quer ser universal, cante a sua aldeia’ ou ‘o rio que passa na minha terra é o mais importante de Portugal’ era ótima num século XX em que só se tinham cartas e telegráfos como meio de comunicação transoceanico. No mundo de hoje, a nossa aldeia é global.

E Jim fala sobre emoções, inseguranças e incertezas que todo mundo tem aos 15 anos.  Sem cair no ‘ai-meu-deus-preciso-transar’ ou no ‘não-sou-popular-quero-morrer’.

Uma coisa que torna a literatura Young Adult dificil de engolir pra mim é que geralmente é escrita opor senhouras e senhoures de seus 40, 50 anos, casados e cheios de gatos em casa, que acham que os Jovens Adultos de hoje estão no mesmo ambiente que os de sua época.

Eu mal cheguei nos 30 e não faço ideia de como  estão lidando com tudo o que acontece hoje em dia. Imaginem eles. Soa tudo ou muito forçado ou mini-adulto demais ou estereotipo de série da Disney.

E se as emoções, inseguranças e incertezas são as mesmas, o lugar social onde você tem que resolve-las não é o mesmo de 15 anos atrás.

Como o Jim tem 20 e muito pouco, ele sabe. Ele passou por isso faz muito pouco tempo, e é por isso que suas protagonistas soam tão… naturais.

Isso não quer dizer que o livro seja superficial. Muito pelo contrário. O rapaz tem uma bagagem cultural imensa, de Stevenson aos beats. Mas também passa por Neil Gaiman e a cultura pop, desenhos animados e musica alternativa. A mistura podia sair indigesta, como os montes de cópias de Alan Moore que praticamente precisam de notas de rodapé para serem entendidas. Só que esse rapaz tem talento.

E desse talento saiu um universo simbólico cheio de mensagens e significados, mas que consegue ser atraente, com personagens cativantes e aterrorizadores ao mesmo tempo.

Contras? O livro é curto, algumas descrições e dialogos ainda são um pouco confusos e/ou forçados. Porém, a narrativa ligeira com tom descolado – quase herdeira de romances noir – ajuda a relevar isso.

Se você ainda não o leu, tá perdendo a chance de daqui a alguns anos, dizer que leu o cara quando ele ainda estava começando. Vai por mim.

Annabel & Sarah

Jim Anotsu
ISBN: 978-85-62942-03-7
Gênero: Fantasia Urbana
Páginas: 156
Preço: R$ 30,90

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A Morte tem muitos olhares

27, dezembro, 2010 Sem comentários

Tenho observado algo nessa nova e impressionantemente grande safra de blogues literários brasileiros é uma reclamação quase que constante por partes dos seus resenhistas/comentadores. Todos eles reclamam de como é dificil resenhar livros de contos.

Curiosamente, eu só tenho essa dificuldade quando o livro é ruim e nenhum conto se salva. Afinal, com tantas histórias ali, pelo menos uma tem que se salvar. Não é?

No caso da coletânea do mineiro M.D. Amado não tive esse problema.

Primeiro, umas palavrinhas sobre o autor. Marcelo Amado é o responsável pelo site Estronho e Esquesito que desde de 1996 vem publicando ‘causos’ estranhos e literatura fantástica na internet.

É, 1996 mesmo. Existia internet naquela época, juro.

Ele prosseguiu com o site aos trancos e barrancos, com pausas e hiatos. Mas o Guardião do Estronho nunca desistiu. E começou a escrever também.

Ano passado, publicou o ebook ‘Empadas e mortes‘ – votado como o melhor ebook de 2009 no prêmio que organizei. O livro serve como aperitivo para a publicação seguinte, que é o ‘Aos olhos da Morte’.

Deu para ver que a irmã mais bonitinha do Morpheus é uma das musas do cara, né?

A escrita é poética, chegando as vezes ao limiar do forçado. Há bons dialogos em alguns dos contos e a construção de cenários é muito boa, consegue levar o leitor a estar na situação.

Na verdade, o grande ‘porém’ do livro é por ser uma coleção de histórias de um mesmo autor sobre um mesmo tema. Isso levar a ter alguns plots e situações repetidos, contados do mesmo jeito, com a mudança de alguns detalhes. Acidentes de carro, por exemplo, são uma dessas constantes, inclusive com algumas descrições muito parecidas. Separados, isso não seria um problema, mas em um livro que os reune isso por vezes cansa o leitor.

Estraga o efeito final? De jeito nenhum. A prosa tende ao poético, como já disse, e por isso tem ritmo, o que acaba conduzindo a leitura. Há personagens carismáticos em situações intrigantes – e a Morte metamorfa, que aparece diferente, por vezes juíza, outras conselheira e até amante. Seu rosto depende do olhar que lhe é dirigido.

Os contos por vezes são mais direcionados a trazer medo, mas alguns tem um tom melancólico e suave, mais voltado a reflexão. Inclusive, em ‘Suzana’, há uma lição de moral mais explícita ao trazer o balanço de vida de uma mulher que viveu sem se preocupar com as consequências finais dos seus atos.

Há histórias de amor entre mortais e a Dama do Fim, relatos dos caminhos que percorremos no pós-Vida, conversas entre amantes que foram separados por ela.

Minha história preferida é ‘Nas areias do Deserto’, que é uma das mais curtas, porém atrai ao recontar uma história conhecida por um angulo bastante peculiar. ‘O som da Morte’ e ‘Um instante de vida’ também se destacam pela segurança da prosa e pela inusitado do que contam. ‘A Igreja’ é contada em forma de causo, concedendo-lhe um tom diferente do resto livro.

Em relação ao contos, o meu ‘porém’ vai para ‘A morte em traços coloridos’, que pede por mais palavras para ser contada. Ficou menor do que deveria, dando a sensação de que não está completa.

Sobre o livro em si, a capa é muito bacana, porém escura demais . Nada de errado nisso, só eu que estou cansada de capas escuras, é pessoal. Ela se beneficiaria se tivesse os detalhes em dourado gravados em relevo – mas isso iria encarecer demais o livro, que pelo conteudo já vale a compra. Para mim, o autor só precisa se libertar de algumas inseguranças. O livro tem quatro depoimentos sobre ele e o seu trabalho, que não seria necessários já que seu texto fala por si só.

Afinal, tem que ter muita audácia para colocar a Morte usando calcinha lilás.

Aos olhos da Morte

Autor: M. D. Amado
Apresentação
: Georgette Silen
Prefácio: Rober Pinheiro
Quarta capa: Miriam Castilho
Introdução: Nine

ISBN: 978-85-63586-02-5
120 páginas

14 x 21cm

Editora Literata / Selo Estronho

Site oficial do livro: www.mdamado.com.br/olhos

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Afinal, mashup e Ficção Alternativa é a mesma coisa?

5, outubro, 2010 9 comentários

Não, não é. E por isso, acho que posso dizer que ainda não temos nenhum mashup brasileiro.

(Já começo dizendo que só li um dos cinco novos títulos – 4 pela LeYa/Lua de Papel e 1 da Tarja. Mas me fio na palavra de dois autores e um dos críticos mais renomados da Ficção Fantástica nacional e me permito discordar do querido Romeu Martins)

O que é um mashup?

É um fenômeno bem típico da era digital, mas que vem de longe. O mashup acontece quando se pega dois elementos que se misturam para gerar um terceiro. Há aplicações web assim – há músicas assim. E na literatura, também.

(Nas artes visuais, a colagem é um fenômeno bastante conhecido. Um dos meus primeiros trabalhos profissionais foi na parte iconográfica da Coleção Diogo Barbosa Machado na BN. O abade português, no século XVIII, montou a sua coleção de gravuras de forma bem peculiar: cortava o retrato de um livro, a moldura de outro, o texto de outro e por vezes ainda fazia sequências na mesma página. Infelizmente, não tem as imagens digitalizadas ainda. Vocês podem saber mais sobre os retratos no texto que meu orientador de mestrado escreveu sobre a coleção – infelizmente a versão digital também não tem imagens.)

Saindo um pouco da literatura fantástica, recentemente uma jovem – jovem mesmo, estudante de Ensino Médio – publicou um romance que tornou-se um best seller em dias. A fórmula? Misturar trechos de “blogs, romances autobiográficos e de letras de música pop e hip hop” com muito pouco texto original – menos de 25% da obra, que tem no seu final uma lista com 5 páginas só com as fontes do romance. As acusações de plágio foram respondidas pela autora Helene Hegemann como vindas de quem não entende que na cultura atual, o mais importante é a autenticidade e não a originalidade, e que seu trabalho estaria na mesma linha dos mashups de música e imagem. Convincente? Pros jurados do segundo maior prêmio literário da Alemanha, foi.

Então, o que definiria um mashup literário?

O mashup usa o texto. É uma colagem de duas (ou mais) obras, fazendo uma terceira completamente diferente. Não usa somente o enredo, premissas ou personagens. É uma intervenção no concreto do texto, não no seu subjetivo.

E a diferença para a Ficção Alternativa?

A Ficção Alternativa é quando você dá um rumo diferente a histórias já contadas ou a personagens que já existiam. Por exemplo? ‘O xangô de Baker Street’ do Jô Soares ou ‘Um estudo em esmeralda’ do Neil Gaiman deram uma nova visão ao universo ficcional criado por Conan Doyle. ‘A liga dos cavaleiros extraordinários’ do Alan Moore juntou um monte de personagens de autores e universos ficcionais distintos.

(Diferença básica entre F.A. e fanfic? Se o que você está fazendo utiliza material caído em dominio público ou com autorização dos detentores dos direitos autorais, é F.A. – caso contrário, é fanfic )

O mashup, por definição seria um tipo de Ficção Alternativa. A diferença é: para ser um mashup, a base com o que o escritor trabalha não é somente a trama, mas o texto – como já explicamos lá em cima.

Nesse sentido, o mashup entrou na Ficção Fantástica com Pride and Prejudice and Zombies, já resenhado e comentado aqui. A Quirk continuou, com Sense sensibility and sea monsters e o aguardado Android Karenina, além de Dawn of the dreadfuls, uma prequel para PPZ que não usa textos da Auten e portanto é F.A. e não mashup.

Os textos da LeYa e o livro da Tarja são uma iniciativa louvável, mas não são mashup. Eles partem da trama e não do texto. Mas como o sucesso de PPZ colocou o mashup em evidência e há um desconhecimento da Ficção Alternativa, tudo foi colocado no mesmo saco.

O que é bem injusto, pelo menos no caso do livro que li.

Lucio Manfredi é um velho conhecido do fandom, tendo participado de muitas coletâneas. Ele estava devendo uma obra maior e é bem significativo do senso de humor e da iconoclastia do escritor que sua estreia na seara dos romancistas tenha sido com ‘Dom Casmurro e os discos voadores’ – nem vou dizer que ele entende do assunto.;)

O livro é uma recriação deliciosa do texto de Machado, muito mais que um mero trabalho de colar trechos nas partes certas. Sem querer ser mais realista que o rei, ou mais Machadiano que o Machado, ele dá ao livro um sabor próprio sem se afastar do texto original.

Aliás, eu gostei mais do Bentinho do Lúcio, sendo sincera aqui. Ele mantém a obsessão, a paranóia e o ensimesmamento do original, mas ele é um pouco mais irônico e lúcido. Capitu mantém sua ambiguidade – assim como Escobar.

O conflito principal está lá, mantido. A tensão entre os personagens também. A diferença é que Bentinho suspeita que existam seres de outro planeta rondando o Rio de Janeiro – ou isso ou ele está ficando maluco.

A trama extra-triângulo amoroso é cheia de reviravoltas e pistas falsas. Nem todos são o que parecem ser. Alguns são mais, outros menos – e tem vezes em que se é pego completamente de surpresa.

Uma das melhores coisas do livro são as referências. Nessa época pós-moderna, tem sido muito comum o despachar de referências, citações e chaves secretas que só entendidos podem desvendar, transformando o hábito de ler um numa grande caçada às referências: como se ler fosse algo similar a aqueles passatempos de caça-palavras, em que vence o leitor que conseguir encontrar mais. Lucio consegue manter um equilibrio raro nesse quesito. Há as piadas internas, claro, principalmente com uma das maiores influências do autor, P. K. Dick – mas no geral, autores e ideias se cruzam com a trama de Machado e o texto de Lucio Manfredi de forma fluida, bem alinhavada. Não é necessário (re)conhecê-las ou decifrá-las para apreender o livro como um todo – descobri-las só o torna mais divertido ainda.

No twitter e sempre que perguntado, o autor responde que não usou o texto de Machado, no máximo uns 30% – lendo a obra, não creio que tenha chegado a isso. São pouquissimas as frases ou trechos trazidos diretamente do original, fazendo do livro uma Ficção Alternativa.

O autor de ‘Memórias desmortas’, Pedro Vieira, também sempre definiu seu livro mais como uma Ficção Alternativa do que como mashup – até porque a sua intenção sempre foi de dar uma continuidade à história, mais do que recontá-la.

Conclusão?

Não temos mashups nacionais, apesar da grita dos que levam a literatura a sério demais -exemplo aqui. Temos uma boa safra de Ficção Alternativa direcionada ao público adolescente que tem uma imagem super errada dos clássicos.

Se você se animou com isso e está disposto a pegar algum dos clássicos da literatura portuguesa, taí uma listinha de sugestões feitas no Twitter por Antonio Luiz M. C. da Costa, Cirilo Lemos e moi:

– Eurico, O Ciborgue

– A ilha dos amores zumbis

– A Morgadinha-bruxa dos Canaviais

– As pupilas do Senhor Reitor do Inferno

– Amor de Danação

– A Cidade a Vapor e as Serras.

– Dr. Pessoa, Dom de Campos, Sr. Caieiro e Mr. Reis

– Os EspaçoLusíadas

– O crime de Padre Amaro, o vampiro

– Ilustre Casa de Ramires, com treinamento de highlanders portugueses…


O último herói italo-americano

2, setembro, 2010 4 comentários

It’s me, Mario!

A geração mais nova de escritores de fantasia, que beiram os vinte anos, adora dizer que se inspira nos jogos de videogames. Depois dessa afirmação, sai enumerando grandes clássicos dos cartuchos, CDs e DVDs como Final Fantasy, Zelda, Kingdom Hearts, Secret of Mana, Chrono Trigger, Castlevania… Até Street Fighter e Tekken já vi serem listados.

Mas uma dúvida sempre me atormentou: e o Mario?

(Pausa para piadas batidas envolvendo armários)

(Talvez a pausa precise ser maior para que vocês possam refletir. Sim, a ficha vai cair. As lembranças eróticas sobre aquele armário da casa do seu vizinho gostosão vão se desvanecer e você irá bater a mão na testa e dizer ‘Ah, aquele Mario’)

Ele passou de coadjuvante no Atari a protagonista do Grande Império Nintendo, uma das peças da Guerra Fria dos Videogames. Houve um tempo, meninos e meninas, em que as pessoas paravam de falar umas com as outras por causa de Sega VS Nintendo – ou melhor, Sonic VS Mario. O ouriço não teve a menor chance (ele não é porco espinho, ok?) contra o carismático encanador que já morou no Brooklyn com seu irmão esquisito e hoje mora no Reino dos Cogumelos, sendo o eterno amor platônico de sua governante, a Princesa Peach. Sim, Pêssego. E ela governa o reino dos cogumelos. Eu não disse que era a coisa mais interessante/original/lógica do mundo, disse?

Desde sua estréia, Mario passou por muitas mudanças e desventuras. Pior do que o que ele passou, só a sina da pobre Peach, que é arrastada de um lado para o outro por uma tartaruga gigante com espinhos, chamada Bowser, uma encarnação mais simpática daquele monstro que destruía Toquio.

(Aliás, se você é velho como eu e nintendete, provavelmente jogou ‘Sim City’ pra SuperNES e viu Bowser destruir seu lindo bairro industrial. Malditos japoneses e sua mania de culpar a poluição por monstros gigantes!)

Todo o tipo de criatura estranha já passou pelos jogos de Mario: um dinossauro fominha que come até pedra chamado Yoshi – e sua imensa e multicor família; Wario, a versão amarela do nosso encarnado herói (existe um Waluigi, mas não me perguntem); cogumelos de diversos tipos e tamanhos; correntes com bolas que latem e se comportam como cachorros; estrelas, bombinhas rosas que são legais; bombinhas pretas que NÃO são legais…

O universo de Mario já emprestou seu nome para uma infinidade de jogos que não os tradicionais, em variantes de Tetris, jogos de corrida, de tabuleiro, de tênis. Seus personagens já estiveram em desenhos animados e deram origem a isso:

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Sim, são Dennis Hopper, Bob Hoskins e John Leguizano. Carreiras tem que acabar e começar em algum ponto, certo?

(Mas a trilha sonora tinha Queen, Roxette, George Clinton fazendo cover do Was (Not Was), Megadeth e Joe Satriani. Antes dos mp3 e num país avesso a singles, muita gente comprou o album)

(Tá, eu confesso: comprei porque tinha Extreme, qual o problema?)

‘Mas, Ana, qual o seu ponto?’

Bem, esta é uma resenha inédita no FC e Afins: é uma resenha de um jogo!

E tem a ver, pois Mario habita um mundo de fantasia. ( se você acha absolutamente NORMAL falar com cogumelos…)

Meu filho ganhou um Nintendo Wii de aniversário. E como parte do pacote, teve direito a escolher um jogo. O preferido? Mesmo antes de Lego-qualquer-série-de-sucesso? Super Mario Galaxy 2. Sim, fiquei surpresa.

E fiquei mais ainda com o jogo em si.

Um ponto: não joguei muito o SMG 1. Minha referência mais recente seriam os jogos de N64 – aliás, até jogar o SMG 2, o Super Mario 64 era o meu preferido, seguido de Yoshi’s Island e seus desenhinhos lúdicos.

A história é inédita e revolucionária: Bowser captura a Peach e a leva para dar uma volta no universo infinito. Sério: gastam tanto com gráficos inovadores e melhorando jogabilidade, será que não dava para gastar um trocado com a história? Não é papo de feminista, juro. É só que mesmo a governante mais burra de todo o universo já teria percebido que aquele castelo não é o lugar mais seguro para manter a sede de um governo. Ainda mais com cogumelos medrosos tomando conta.

Não adianta: em termos de plot e coisas do tipo, Super Mario RPG ainda é o ponto de referência. E posso sonhar que eles façam algo do tipo pro Wii?

Certo, depois ele voa pelo espaço numa nave-planeta que fica com a sua cara (literalmente), que pertence a um grupo de seres estreloides. A nave serve como base entre as fases, onde você pode conseguir informações, vidas extras e se distrair.

O jogo tem todos os elementos dos antigos clássicos, com algumas novidades. Mario pode ser uma mola, um fazedor de nuvens, uma abelha, uma pedra que rola. A florzinha que atira também está de volta, assim como Yoshi, o fofo dinossauro comilão. Os fantasminhas tímidos te atazanam em algumas fases. Os gráficos seguem o padrão ‘Mario Bros’, tanto em cores como em elementos: bichos fofinhos e nada muito berrante.

O legal é a variedade. Conforme o jogo avança, a dificuldade aumenta, mas nada que impeça uma criança de 8 anos de conseguir as 70 estrelas e derrotar Bowser – ou uma de 32 de ficar catando todas as estrelas possíveis para abrir todos os mundos que existem pelo mero fator de diversão. A jogabilidade é boa, com movimentos bem variados e (na maioria das vezes) fáceis de executar. Além do que muita coisa é semelhante ao jogo de N64.

Voltemos à minha pergunta inicial: boa parte dos escritores de hoje cresceu com videogames – eu sou do tempo do Atari, mas sempre gostei de acompanhar a área, mesmo que de longe. São pessoas capazes de debater qual Final Fantasy tem melhor roteiro ( é o VI e isso é indiscutível, aliás).

Então, qual é o motivo dos irmãos Mario (imagino que o nome deles sejam Mario Mario e Luigi Mario) serem pouco lembrados por esses escritores?

Simples.

Eles não são os heróis pré-destinados. Alto, louros, fortes e inteligentes, que nasceram com uma missão e irão cumpri-la.

Nem são os anti-heróis que aprendemos a amar. Cínicos, sagazes, irônicos, habilidosos e que só fazem o que é certo porque sabem que vão levar alguma vantagem.

E nem são como Frodo, o herói relutante da Fantasia por excelência. Pois nenhum dos nossos bigodudos amigos tem relutância a cumprir seu dever.

Eu acho que eles são deixados de lado porque são absolutamente comuns. Pessoas como eu e você que deram o azar de estarem no lugar errado na hora errada. Eles são narigudos, pobres, esquisitos, cheios de problemas, carecas, falam engraçado. Quem gosta de heróis assim?

Bom, eu gosto.

(O post de hoje é em homenagem ao José Roberto Vieira, autor do ‘Baronato de Shoah’ que faz aniversário hoje – e que assim como o Mario Mario também… gosta de pizza)

O futuro do pretérito a vapor, um ano depois.

20, julho, 2010 10 comentários

Hoje, o escritor e jornalista Romeu Martins lembrou que é o aniversário da coletânea Steampunk. Um momento mais do que adequado para registrar minhas opiniões sobre a obra e refletir sobre sua repercussão.

Acima de qualquer coisa, temos que reiterar algo: foi a coletânea brasileira de contos de ficção fantástica que mais repercutiu no fandom, nacional e internacional. (Sim, fandom. Infelizmente, não foi este livrinho o Santo Graal que os escritores brasileiros de ficção especulativa esperam há anos. Um dia, ele chega, junto com Papai Noel e D. Sebastião, e a Academia Brasileira de Letras vai nos chamar a todos para tomar chá de fardão).

Toda a regra tem exceção; no caso daquela velha máxima do Nelson Rodrigues (não somos parentes, apesar da acidez semelhante) ‘Toda a unanimidade é burra’, a exceção é a coletânea da Tarja. Não houve comentários negativos, apesar de alguns resenhistas terem dado destaques positivos e negativos. A lista bem extensa de resenhas é esta:

Comentário no Correio Fantástico
Comentário no World SF
Comentário no Mensagens do Hiperespaço
Resenha de Larry Nolen (em inglês)
comentada no Cidade Phantastica
Twitterresenha de Edgar Refinetti no Cidade Phantastica
Resenha de Ricardo França no Cidade Phantastica
Resenha de Pedro Vieira
Resenha de Giseli Ramos
Resenha na revista online RRAULR
Resenha na Paragons
Resenha de Bruno Schlater
Comentário de Roberto de Sousa Causo
Resenha de Cristina Alves em duas partes I e II
Ana Carolina Silveira

‘Ok, Ana, nós sabemos o que estes resenhistas acharam. Queremos saber a SUA opinião ou não estaríamos aqui.’

É nessas horas que eu não gosto de ser amiga de outros escritores. Afinal, considero 89% dos autores presentes na coletânea como amigos. Bom, eles sabem que eu sou sincera.

Ser resenhista pode ser o caminho mais curto para perder seus amigos...

O grande lance de Steampunk – histórias de um passado extraordinário , um dos toques que fizeram o livro destacar-se entre as muitas coletâneas de ficção fantástica dos últimos dois anos foram duas histórias. Não que as outras sete sejam ruins.

Porém, os contos de Jacques Barcia e Fábio Fernandes conseguiram ser vaporosos sem o cheiro de naftalina que os demais trouxeram. Não se importaram em imitar escritores de dois séculos atrás, seja Poe, Verne, Lovecraft ou Machado.

Apesar de ‘Uma vida possível atrás das barricadas’ ser também New Weird – seu autor é o único brasileiro a assumida e reconhecidamente escrever dentro desse movimento, nem por isso deixa de ser vapor. Jacques Barcia cria um cenário único, fugindo do século XIX histórico, contando uma história de amor inusitada entre dois integrantes das classes baixas. Não é sobre cientistas, espiões, tramas internacionais. É sobre um autômato e uma golem e a vida possível atrás das barricadas de uma cidade que se rebela contra o status quo. Tocante, bem escrito e imaginativo.

Seria o melhor conto do livro isolado, não fosse ‘Uma breve história da maquinidade’ de Fábio Fernandes. Viktor Frankenstein e seu método são recorrentes nos textos do autor. Em um texto basicamente narrativo, ele traz mais uma versão da historia do médico com complexo de Deus que, depois do embate com sua criatura resolve dedicar-se a autômatos. O único ponto ruim é que dá vontade de destrinchar melhor esse universo.

Depois, na minha escala de gosto, vem ‘A música das esferas’. Mas preciso apontar que conheço o universo apresentado por Alexandre ‘Lancaster’ Soares há anos, então sou familiarizada com a narrativa, os personagens e o cenário. O conto fica meio perdido, por ser mais ingênuo e com um tom mais juvenil que os demais, e o final compromete um pouco. Porém, o jovem Adriano tem tudo para virar herói teen.

Steampunk também pode ser art decô

Gosto muito do cenário do ‘Cidade Phantástica’, de Romeu Martins, e do uso que faz de personagens tão diferentes. Porém, a trama me pareceu muito rocambolesca, ao contrário de ‘Por um fio’, de Flávio Medeiros, que poderia ter ousado mais nas máquinas vernianas e ficou tímido.

‘A flor do estrume’ de Antonio Luiz da Costa é um exemplo do que falei sobre tentar mimetizar autores de época. Apesar do talento do escritor e do conjunto cenário-trama, que ficou interessantíssimo, o resultado final ficou pesado. ‘O plano de Robida’ de Roberto Causo poderia ter se beneficiado de um bom corte, ficou grande demais, por vezes cansativo e sem final, apesar de uma boa construção de personagens e tramas.

Dois contos, na minha nada humilde opinião, poderiam tranquilamente ter ficado de fora da coletânea. ‘Dobrão de prata’, de Claudio Villa, não é ruim, muito pelo contrário é o melhor texto do autor que li até agora. Porém, não cabe numa antologia temática de steampunk. E Gian Celli colocou seu conto para abrir e forneceu o texto mais fraco, que adiciona muito pouco ao livro. O seu ‘Assalto ao trem pagador’ tem elementos que se encontram nos demais contos, e ainda por cima tem muito mais cara de primeiro capítulo do que de um texto fechado. Talvez um texto introdutório de peso, explicando sobre o gênero e os motivos de cada conto estar ali fizesse mais jus ao bom trabalho de ter reunido esse bom elenco, apesar das falhas como editor, ao incluir um conto fora da temática e permitido que contos ficassem sem final.

Ao fim e ao cabo, a coletânea deu visibilidade ao gênero dentro do fandom e apresentou escritores brasileiros ao público fã da cultura do vapor. Os autores envolvidos continuam a fazer vapor: Barcia e Fernandes vão entrar numa nova edição da coletânea de Jeff Vandermeer sobre o gênero, Romeu Martins e Antonio Luiz da Costa prosseguem explorando os universos apresentados nos seus contos, Alexandre Soares tem grandes planos para seu herói.

Talvez essa continuidade seja o grande legado do livro.

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Weird Evangelisti – por Matheus Quinan

24, abril, 2010 Sem comentários

Resenhista convidado diretamente do blog Caos Neural

Black Flag

Utilizando uma narrativa violenta e doentia, o italiano Valerio Evangelisti, autor da trilogia “Magus” e de “O Inquisidor” e “Correntes da Inquisição”, constrói, a partir de três histórias alternadas, um livro inovador e marcante.

O primeiro capítulo é o início de uma história, em um tempo mais próximo do presente, onde uma tragédia no Panamá, condicionada pelo ataque de estadunidenses, acontece. Há a presença de um grupo de prisioneiros americanos portadores da “porfiria”, doença responsável por algumas lendas sobre lobisomens. Tal doença, na verdade, é um dos focos principais do
livro. Esta história só tem continuidade no último capítulo.

Passada na Guerra da Secessão, a história principal, de capítulos maiores, conta a trajetória de Pantera, um pistoleiro mexicano, que também é um “palero”, uma espécie de xamã. O feiticeiro é capturado por um bando de mercenários liderado por Jesse James, lendário cowboy de gatilho rápido. Acaba sendo tratado não como prisioneiro, mas como um membro do bando. Em meio ao caos de assaltos a fazendas e do escalpelamento de inimigos, Pantera conhece Koger, um sujeito possuidor de uma doença que o faz parecer um lobisomem, Molly, uma prostituta irlandesa que se apaixona por ele, Lobo Branco, um índio velho portador de um cachimbo capaz de proporcionar experiências psicodélicas, Bellegarrigue, um médico francês anarquista que pretende usar o bando para conseguir seu objetivo, e vários outros personagens insanos e absurdos.

A história que se mescla com a de Pantera se passa em um futuro distante, onde a terra, sobretudo “Paradice”, a cidade em que vive Lilith, a  protagonista, é habitada somente por loucos. A esta altura, a tortura e o sofrimento são encarados como formas de afeto, a morte é vista com indiferença e o estupro é corriqueiro. Todos são assim, sem exceção.

Considerado por alguns a obra lançada no Brasil mais próxima do New Weird, Black Flag quebra o conceito que costumamos ter sobre fantasia e ficção científica, reinventando e fundindo vários estilos de forma bastante efetiva.

Orgulho e preconceito contra zumbis

20, abril, 2010 4 comentários

Um dos maiores chavões que eu conheço – olha que são muitos – é o velho ‘a escola mata o gosto pela leitura ao obrigar os alunos a ler os clássicos’. Apesar de acreditar que muito disso se deve mais a obrigatoriedade do que aos clássicos em si, não podemos desconsiderar que em tempos de ‘Resident Evil’ e ‘God of War’, ‘O morro dos ventos uivantes’ e ‘A Odisseia’ saem perdendo no quesito atratividade.

Afinal, entre ler sobre monstros e matá-los para se tornar um deus qualquer pessoa com menos de 30 anos vai escolher o caminho mais divertido e sangrento. Oras, por vezes até eu mesma escolho. Então, fica difícil alguém conseguir manter a atenção nos intermináveis saraus e reuniões sociais de ‘A moreninha’ e ‘Senhora’ em tempos de ‘The Sims’, twitter e MSN.

E até onde posso perceber, o problema é universal. Ou melhor dizendo, mundial. As crianças vulcanas devem adorar ler os ensinamentos de Surak.

Mas aqui na 3ª pedra a partir do Sol, o negócio é bem mais complicado.

Até que um dia, lá fora – claro, o editor Jason Rekulak da Quirk Classics achou o ‘ovo de Colombo’ dessa história. Foi inspirado pelo exemplo de um livro de auto-ajuda para pessoas… ah, fofas em excesso assim como eu, que misturava os ensinamentos do Sun Tzu em ‘A arte da guerra’ com os conselhos que todo o fofinho já escutou de seu endócrino ou nutricionista que mudou os rumos da sua casa editorial.

Resolveu pegar clássicos da literatura que já tivessem caído em domínio publico e fazer uma mistura com elementos dos livros que a rapaziada curte: vampiros, fantasmas, lobisomens, andróides, zumbis, monstros marinhos, ninjas… Contatou o escritor pouco conhecido Seth Grahame-Smith, dizendo que tinha uma ideia, um título e só. O autor disse depois que este título ‘era a coisa mais genial que já tinha ouvido’: ‘Pride and Prejudice and Zombies‘.

Cá entre nós, se não é a coisa mais genial que EU já ouvi, está no top 100 com certeza.

O livro obviamente incomodou muitos acadêmicos. Mas como todos nós sabemos, o público em geral não dá muita bola para ranzinzices mofadas e adorou a ideia, fazendo do mashup do livro de Jane Austen um dos grande sucessos editoriais do ano passado. A Intrinseca, mostrando mais uma vez que é antenada com o que cheira a sucesso (é a editora das séries ‘Crepúsculo’ e ‘Percy Jackson’ no Brasil), lançou a versão brasileira do livro no começo de 2010.

Manteve-se fiel ao espírito da edição original: a capa é a mesma, o título é a tradução literal, as ilustrações – uma boa emulação dos originais da época de Austen – também estão lá. Inclusive a ‘ficha de leitura’, que tira um grande sarro das perguntas dos livros paradidáticos, aparece no final.

A trama principal é a que foi escrita por Jane Austen em 1813, uma crônica ácida e divertida dos costumes do inicio do século XIX vistos por uma mulher. As irmãs Bennet estão na idade de casar e essa se torna a principal preocupação de sua mãe, uma senhora praticamente insuportável. A vida das cinco moças gira em torno dessa obsessão por casamento, inclusive Elizabeth, a segunda mais velha e a mais ousada, que é a protagonista da história.

Eu disse que a vida delas gira em torno de casamentos? Bem, isso na versão original.

No livro da Quirk Classics, tem um probleminha distraindo as mentes das jovens desse objetivo. Uma estranha praga assola a Inglaterra, fazendo com que os mortos levantem dos túmulos atrás de carne humana. Como nos bons filmes e livros do gênero, uma mordida e o pobre infeliz também irá contrair a moléstia. E é por isso que o pai, o Sr. Bennet, tem outros pensamentos em relação ao futuro de suas filhas. As irmãs são treinadas exaustivamente em artes marciais para poderem se defender e ajudar na defesa de seu país contra as hordas de mortos-vivos.

Aí está a receita. O livro mantém o humor ácido e inteligente de Austen, inclusive com os diálogos marcantes entre Elizabeth Bennet e o arrogante Mr. Darcy, Lady Catherine continua sendo preconceituosa, a pobre Charlotte ainda tem o seu destino trágico… porém tudo fica mais divertido com zumbis. A cena do jantar, logo no começo do livro, perde seu ar de sarau e transforma-se em uma batalha campal em um dos muitos momentos divertidos da história.

O autor não perde muito tempo explicando o que aconteceu ou como os zumbis apareceram. Mal e mal nos deixa saber que estão procurando uma cura. Nos 15% do livro que lhe couberam – já que manteve 85% do texto original – ele se preocupa muito mais em inserir cenas de ação, como a disputa de Elizabeth com os ninjas de Lady Catherine, ela mesma uma eximia lutadora que teve tempos de glória no combate aos atingidos pela praga.

Porém, isso não faz muita diferença. O toque de mestre ali foi saber onde inserir na narrativa os momentos de quebra – como leitora dos dois livros, com e sem zumbis, deu para perceber que ele escolheu bem. Sempre que a trama de Jane Austen podia afastar jovens leitores, há zumbis, ninjas e lutas para trazê-los de volta.

Claro que aqueles que levam a literatura a sério demais bradam que é um sacrilégio, uma afronta, um desrespeito, antiético e até criminoso que o autor ganhe dinheiro dessa forma. Nunca vi, no entanto, esses mesmo críticos refletiram que as editoras ganham muito dinheiro reeditando clássicos em domínio público para servirem como paradidáticos. Qualquer pessoa que entenda o mínimo de legislação autoral sabe que a partir do momento em que a obra cai em domínio público, ela é de livre utilização, por qualquer pessoa, incluindo autores. E só seria antiético se o nome de Jane Austen fosse deixado de lado – o que não acontece, muito pelo contrário.

E é curioso que digam que é um desrespeito e uma afronta. Jane Austen enfrentou esse mesmo tipo de comentário por ser uma mulher que se atrevia a fazer literatura. Poucas na época ousavam, muito menos o sucesso e o reconhecimento da inglesa.

Pode ser que artisticamente, ‘Orgulho e Preconceito e Zumbis’ não revolucione a literatura. Porém, já trouxe uma pequena revolução no mercado. A Quirck Classics já lançou ‘Sense and sensibility and sea monsters’ e agendou o lançamento de ‘Android Karenina’ para outubro deste ano. Grahame-Smith é o autor de ‘Abraham Lincoln: vampire slayer’. Outros autores e editores começam a apostar no filão: Amanda Grange lançou ‘Mr. Darcy, Vampyre’ pela SourceBooks.

E claro que isso não ia parar nos livros.  ‘Pride and prejudice and Zombies‘ vai virar filme e graphic novel. Uma produtora cinematográfica inglesa já anunciou que pretende filmar uma invasão alienígena à cidade fictícia de Meryton, onde se passa o livro de Jane Austen, intitulada Pride and Predator’. Um jogo para Ipod e Iphone será lançado em breve.

E mesmo no Brasil, essa mania pode pegar. O assunto já apareceu na Veja e na Época, foi capa do suplemento Megazine de 20/04/2010, com brasileiros dando exemplos de obras nacionais ‘remixadas’, a Intrinseca já anunciou o lançamento de ‘Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos’ e ‘Abraham Lincoln: matador de vampiros’ para 2010…

E a Desiderata anuciou que no final desse ano irá lançar “Memórias Pós-túmulo de Brás Cubas’ no final do ano. O autor ainda não foi anunciado. Mas já prevejo que ele irá apanhar bastante. Da crítica. O público, porém, tem muita chance de gostar do que vai ler!

Chamada no ‘Comunidade FC

Servir no Céu ou reinar no Inferno?

12, abril, 2010 2 comentários

“A vida de Dolens ardia entre dois fogos: o lume do sonho e as faíscas do pesadelo.”

O centésimo em Roma - capa

Vocês sabem o que países tão diferentes entre si como Romênia, Israel, Portugal e Inglaterra tem em comum? Um dia, muitos anos atrás, todos – ou pelos menos os territórios que pertencem a eles hoje – fizeram parte da mesma unidade política, o Império Romano.

Nossas instituições, nossa forma de governo, nossa ‘religião oficial’… boa parte da origem da cultura do Ocidente vem de Roma e seus dominios. Urbi et orbi. Mesmo a língua em que escrevo esta resenha é romana – ou melhor, ‘romance’.

A cidade na Península Itálica virou nosso eterno Fantasma do Natal Passado, ponto de comparação quase universal. Por exemplo a própria ideia de ‘Império’, quimera perseguida na Idade Média por Carlos Magno e seus descendentes e renascida por várias vezes em palavras e conceitos. Kaiser, czar… palavras que denominam o governante mais poderoso vem de César, o título imperial romano.

(Não vou me alongar aqui nas questões históricas dos impérios coloniais e os do século XIX, mas deixo aqui a recomendação: leiam Eric Hobsbawn, ‘A era dos impérios’)

Hoje, a comparação sempre constante é com a influência política e econômica dos Estados Unidos – o chamado ‘império americano’. Inclusive o emblemático 11 de setembro de 2001 foi comparado à queda de Roma, invadida pelos ‘bárbaros’.

A Roma histórica caiu fisicamente, deixando o seu legado institucional a cargo da religião que a príncipio foi sua vítima, depois um misto de algoz e herdeiro, o cristianismo. A Roma ‘americana’, invadida por ‘godos’ em nome de Alá, permaneceu inteira, se não intacta. No entanto, a invasão deixou impressões que não se apagaram.

Foi essa impressão um dos motivos que levaram o escritor e roteirista Max Mallmann a passar seu quinto romance em Roma – o Império e a cidade. A influência latina no mundo ocidental e a paixão do autor pelos cenários urbanos (três de seus livros anteriores passam-se em cenários urbanos, mesmo que dentro de uma base espacial) também influiram, além de motivos inconscientes.

Roma é uma constante na literatura. De Gore Vidal a Marion Zimmer Bradley, vários foram os autores que se aventuraram pelos caminhos que levavam a capital do mundo. E se formos acreditar nos ditos populares, todos levam lá. Então, todos os gêneros já passearam pelas estreitas ruas entre as sete colinas: Ficção Científica, Fantasia, História Alternativa, Romance, Terror e Suspense. Este último tornou-se tão popular que gerou um subgênero, o dos ‘detetives de toga‘.

E foi por essa trilha que o gaucho seguiu em ‘O centésimo em Roma’, seu terceiro livro pela editora Rocco, lançado neste mês de abril. Ao acompanharmos a vida e as ambições de Publius Desiderius Dolens, centurião que acaba de chegar na cidade para ser o novo primus pilus dos pretorianos, somos envolvidos na trama do assassinato de um senador. A contragosto, Dolens aceita fazer a investigação, ao mesmo tempo em que tenta escalar a complicada hierarquia social romana para chegar ao apice possivel a ele, a ordem equestre.

E nisso, conhecemos a Roma com sua cara múltipla, de gladiadores, judeus, gregos, cristãos, padeiros, prostitutas, sacerdotes falsos e verdadeiros. Inclusive somos apresentados a um legítimo lusitano, dono de uma taverna.

A história desse ambicioso romano, que saiu de um dos bairros mais miseráveis da cidade, é contada em duas linhas narrativas. Pois a base de ‘O centésimo em Roma’ é o livro ‘Vita Dolentis’, de Quintus Trebellius Nepos, que foi comandado pelo centurião. Entremeados com trechos da narrativa contemporânea, testemunhada por Nepos, há trechos em que acompanhamos de um outro ponto de vista, nos quais é a voz do autor brasileiro que fala.

É impossível não se identificar com o protagonista, complexo e paradoxal, dividido entre o dever e a ambição, o amor pela mulher germana e a pátria romana. Dolens é irônico e cruelmente sincero ao refletir sobre seu próprio valor, muito mais do que Nepos – a ironia que é quase marca registrada de Max Mallmann.

A extensa pesquisa histórica traz profundidade ao cenário, apresentado de forma magistralmente suave no decorrer do livro. Roma nos parece tão viva quanto Nova Iorque ou o Rio de Janeiro, e os personagens, apesar de não parecerem romanos anacrônicos, nos dão a sensação de serem conhecidos. Ambientado no ‘Ano dos Quatro Imperadores’, em que a instabilidade ameaçava a continuidade do império,  o livro trata da política romana de uma forma que a torna estranhamente familiar para nós, brasileiros.

Sem contar, claro, os deliciosos pensamentos céticos/heréticos de Dolens tentando entender os cristãos, aquelas figuras estranhas que começam a aparecer em Roma.

No final, o autor acrescentou um posfacio, onde explica o processo de confecção e pesquisa do romance, inclusive listando algumas das obras mais importantes consultadas (por aquelas engraçadas coincidências, uma é o dicionário de latim de Ernesto de Faria, pai de minha chefe na Biblioteca Nacional. Curiosamente, não fui que o indiquei ao autor), as referências implicitas e explicitas, além de lista de personagens.

Para quem gosta de mistério ou de Roma – ou de ambos – uma leitura insuperável.

***

Agora, para você, meu colega escritor iniciante:

‘O centésimo em Roma’ é leitura importantíssima, por alguns pontos:

– Pela meticulosidade e precisão da pesquisa envolvida

– Pela mostra de como trabalhar com referências

– Pela boa construção de personagens e tramas

– E por mostrar que um brasileiro pode escrever sobre Roma com perfeição.

Atenção: A resenha foi escrita com base numa proof-reading. Quaisquer incorreções serão corrigidas com o livro final em mãos

Autor: Max Mallmann

ISBN: 978-85-3252-507-9

Gênero: Histórico

Formato: 16cm x 23cm

Páginas: 424

Capa: Christiano Menezes (estúdio Retina78)

Preço de capa: R$ 49,00

Lançamentos:

Rio de Janeiro- quinta-feira, dia 15 de abril, na Livraria da
Travessa de Ipanema
(Rua Visconde de Pirajá, 572), a partir das 19:30.

Porto Alegre – 6 de maio, também uma quinta-feira, no mesmo
horário, na Livraria Cultura (Bourbon Shopping Country
(Avenida Túlio de Rose, 80 – lj. 302).

Site do autor

Sorteio do livro nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia e FC

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