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Foi há alguns anos já, num reino ao pé do mar…

Que aconteceu a história que Jim Anotsu revolveu contar.

(Palmas para mim por minha brilhante parafrase de E. A. Poe)

(Obrigada)

(Voltando ao que vim fazer)

Vou contar uma historinha.

Há muito, muito tempo atrás,  existia uma nuvem negra sobre o Fandom brasileiro. Tudo era rabugice e mimimi, ‘ninguém nos ama, ninguém nos publica’.

Até que surgiu a internet… e o mimimi continuou, só que por email. Mas a internet também trouxe uma renovação, uma lufada de vento fresco que começou a soprar aquela nuvenzinha irritante para fora.

Alguns chamaram essa lufada de ‘Terceira Onda’, só para irritar quem já estava de rabugice.

E nas comunidades virtuais, fora do alcance dos tradicionalistas e conservadores, o pessoal mais novo ainda que a tal Terceira Onda começou a fazer burburinho, trocar ideias e falar de trilogias, heptalogias e dominação mundial.

Um belo dia, um desses meninos procurou uma pessoa com um pouco mais de experiência – mas nem tanta que a tivesse contaminado com a nuvenzinha negra – e pediu que ela lesse seu primeiro original. E ela leu.

E ficou muito contente quando, poucos anos depois, recebeu aquele original novamente, mas agora em formato de livro.

Talvez o livro do Jim seja o melhor livro de estreia da literatura fantástica brasileira.

Talvez ele seja o mais próximo que chegamos nos últimos dois anos de nos aproximarmos da vanguarda.

Só sei que é um dos melhores livros que li recentemente. E uma das poucas unanimidades aqui em casa: mamãe leu e gostou, minha irmã também. Até seu Leopoldo achou interessante, apesar da capa rosa.

Ao contar a história de duas irmãs londrinas, Jim quebrou o 1o Mandamento do Fandom Brasileiro: Enfiarás o Brasil no seu livro a qualquer custo.

Não tem Brasil nem Brazil. E essa história de ‘se quer ser universal, cante a sua aldeia’ ou ‘o rio que passa na minha terra é o mais importante de Portugal’ era ótima num século XX em que só se tinham cartas e telegráfos como meio de comunicação transoceanico. No mundo de hoje, a nossa aldeia é global.

E Jim fala sobre emoções, inseguranças e incertezas que todo mundo tem aos 15 anos.  Sem cair no ‘ai-meu-deus-preciso-transar’ ou no ‘não-sou-popular-quero-morrer’.

Uma coisa que torna a literatura Young Adult dificil de engolir pra mim é que geralmente é escrita opor senhouras e senhoures de seus 40, 50 anos, casados e cheios de gatos em casa, que acham que os Jovens Adultos de hoje estão no mesmo ambiente que os de sua época.

Eu mal cheguei nos 30 e não faço ideia de como  estão lidando com tudo o que acontece hoje em dia. Imaginem eles. Soa tudo ou muito forçado ou mini-adulto demais ou estereotipo de série da Disney.

E se as emoções, inseguranças e incertezas são as mesmas, o lugar social onde você tem que resolve-las não é o mesmo de 15 anos atrás.

Como o Jim tem 20 e muito pouco, ele sabe. Ele passou por isso faz muito pouco tempo, e é por isso que suas protagonistas soam tão… naturais.

Isso não quer dizer que o livro seja superficial. Muito pelo contrário. O rapaz tem uma bagagem cultural imensa, de Stevenson aos beats. Mas também passa por Neil Gaiman e a cultura pop, desenhos animados e musica alternativa. A mistura podia sair indigesta, como os montes de cópias de Alan Moore que praticamente precisam de notas de rodapé para serem entendidas. Só que esse rapaz tem talento.

E desse talento saiu um universo simbólico cheio de mensagens e significados, mas que consegue ser atraente, com personagens cativantes e aterrorizadores ao mesmo tempo.

Contras? O livro é curto, algumas descrições e dialogos ainda são um pouco confusos e/ou forçados. Porém, a narrativa ligeira com tom descolado – quase herdeira de romances noir – ajuda a relevar isso.

Se você ainda não o leu, tá perdendo a chance de daqui a alguns anos, dizer que leu o cara quando ele ainda estava começando. Vai por mim.

Annabel & Sarah

Jim Anotsu
ISBN: 978-85-62942-03-7
Gênero: Fantasia Urbana
Páginas: 156
Preço: R$ 30,90

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