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Afinal, mashup e Ficção Alternativa é a mesma coisa?

Não, não é. E por isso, acho que posso dizer que ainda não temos nenhum mashup brasileiro.

(Já começo dizendo que só li um dos cinco novos títulos – 4 pela LeYa/Lua de Papel e 1 da Tarja. Mas me fio na palavra de dois autores e um dos críticos mais renomados da Ficção Fantástica nacional e me permito discordar do querido Romeu Martins)

O que é um mashup?

É um fenômeno bem típico da era digital, mas que vem de longe. O mashup acontece quando se pega dois elementos que se misturam para gerar um terceiro. Há aplicações web assim – há músicas assim. E na literatura, também.

(Nas artes visuais, a colagem é um fenômeno bastante conhecido. Um dos meus primeiros trabalhos profissionais foi na parte iconográfica da Coleção Diogo Barbosa Machado na BN. O abade português, no século XVIII, montou a sua coleção de gravuras de forma bem peculiar: cortava o retrato de um livro, a moldura de outro, o texto de outro e por vezes ainda fazia sequências na mesma página. Infelizmente, não tem as imagens digitalizadas ainda. Vocês podem saber mais sobre os retratos no texto que meu orientador de mestrado escreveu sobre a coleção – infelizmente a versão digital também não tem imagens.)

Saindo um pouco da literatura fantástica, recentemente uma jovem – jovem mesmo, estudante de Ensino Médio – publicou um romance que tornou-se um best seller em dias. A fórmula? Misturar trechos de “blogs, romances autobiográficos e de letras de música pop e hip hop” com muito pouco texto original – menos de 25% da obra, que tem no seu final uma lista com 5 páginas só com as fontes do romance. As acusações de plágio foram respondidas pela autora Helene Hegemann como vindas de quem não entende que na cultura atual, o mais importante é a autenticidade e não a originalidade, e que seu trabalho estaria na mesma linha dos mashups de música e imagem. Convincente? Pros jurados do segundo maior prêmio literário da Alemanha, foi.

Então, o que definiria um mashup literário?

O mashup usa o texto. É uma colagem de duas (ou mais) obras, fazendo uma terceira completamente diferente. Não usa somente o enredo, premissas ou personagens. É uma intervenção no concreto do texto, não no seu subjetivo.

E a diferença para a Ficção Alternativa?

A Ficção Alternativa é quando você dá um rumo diferente a histórias já contadas ou a personagens que já existiam. Por exemplo? ‘O xangô de Baker Street’ do Jô Soares ou ‘Um estudo em esmeralda’ do Neil Gaiman deram uma nova visão ao universo ficcional criado por Conan Doyle. ‘A liga dos cavaleiros extraordinários’ do Alan Moore juntou um monte de personagens de autores e universos ficcionais distintos.

(Diferença básica entre F.A. e fanfic? Se o que você está fazendo utiliza material caído em dominio público ou com autorização dos detentores dos direitos autorais, é F.A. – caso contrário, é fanfic )

O mashup, por definição seria um tipo de Ficção Alternativa. A diferença é: para ser um mashup, a base com o que o escritor trabalha não é somente a trama, mas o texto – como já explicamos lá em cima.

Nesse sentido, o mashup entrou na Ficção Fantástica com Pride and Prejudice and Zombies, já resenhado e comentado aqui. A Quirk continuou, com Sense sensibility and sea monsters e o aguardado Android Karenina, além de Dawn of the dreadfuls, uma prequel para PPZ que não usa textos da Auten e portanto é F.A. e não mashup.

Os textos da LeYa e o livro da Tarja são uma iniciativa louvável, mas não são mashup. Eles partem da trama e não do texto. Mas como o sucesso de PPZ colocou o mashup em evidência e há um desconhecimento da Ficção Alternativa, tudo foi colocado no mesmo saco.

O que é bem injusto, pelo menos no caso do livro que li.

Lucio Manfredi é um velho conhecido do fandom, tendo participado de muitas coletâneas. Ele estava devendo uma obra maior e é bem significativo do senso de humor e da iconoclastia do escritor que sua estreia na seara dos romancistas tenha sido com ‘Dom Casmurro e os discos voadores’ – nem vou dizer que ele entende do assunto.;)

O livro é uma recriação deliciosa do texto de Machado, muito mais que um mero trabalho de colar trechos nas partes certas. Sem querer ser mais realista que o rei, ou mais Machadiano que o Machado, ele dá ao livro um sabor próprio sem se afastar do texto original.

Aliás, eu gostei mais do Bentinho do Lúcio, sendo sincera aqui. Ele mantém a obsessão, a paranóia e o ensimesmamento do original, mas ele é um pouco mais irônico e lúcido. Capitu mantém sua ambiguidade – assim como Escobar.

O conflito principal está lá, mantido. A tensão entre os personagens também. A diferença é que Bentinho suspeita que existam seres de outro planeta rondando o Rio de Janeiro – ou isso ou ele está ficando maluco.

A trama extra-triângulo amoroso é cheia de reviravoltas e pistas falsas. Nem todos são o que parecem ser. Alguns são mais, outros menos – e tem vezes em que se é pego completamente de surpresa.

Uma das melhores coisas do livro são as referências. Nessa época pós-moderna, tem sido muito comum o despachar de referências, citações e chaves secretas que só entendidos podem desvendar, transformando o hábito de ler um numa grande caçada às referências: como se ler fosse algo similar a aqueles passatempos de caça-palavras, em que vence o leitor que conseguir encontrar mais. Lucio consegue manter um equilibrio raro nesse quesito. Há as piadas internas, claro, principalmente com uma das maiores influências do autor, P. K. Dick – mas no geral, autores e ideias se cruzam com a trama de Machado e o texto de Lucio Manfredi de forma fluida, bem alinhavada. Não é necessário (re)conhecê-las ou decifrá-las para apreender o livro como um todo – descobri-las só o torna mais divertido ainda.

No twitter e sempre que perguntado, o autor responde que não usou o texto de Machado, no máximo uns 30% – lendo a obra, não creio que tenha chegado a isso. São pouquissimas as frases ou trechos trazidos diretamente do original, fazendo do livro uma Ficção Alternativa.

O autor de ‘Memórias desmortas’, Pedro Vieira, também sempre definiu seu livro mais como uma Ficção Alternativa do que como mashup – até porque a sua intenção sempre foi de dar uma continuidade à história, mais do que recontá-la.

Conclusão?

Não temos mashups nacionais, apesar da grita dos que levam a literatura a sério demais -exemplo aqui. Temos uma boa safra de Ficção Alternativa direcionada ao público adolescente que tem uma imagem super errada dos clássicos.

Se você se animou com isso e está disposto a pegar algum dos clássicos da literatura portuguesa, taí uma listinha de sugestões feitas no Twitter por Antonio Luiz M. C. da Costa, Cirilo Lemos e moi:

– Eurico, O Ciborgue

– A ilha dos amores zumbis

– A Morgadinha-bruxa dos Canaviais

– As pupilas do Senhor Reitor do Inferno

– Amor de Danação

– A Cidade a Vapor e as Serras.

– Dr. Pessoa, Dom de Campos, Sr. Caieiro e Mr. Reis

– Os EspaçoLusíadas

– O crime de Padre Amaro, o vampiro

– Ilustre Casa de Ramires, com treinamento de highlanders portugueses…


  1. 6, outubro, 2010 em 00:58 | #1

    Também vou pelo caminho da FA, Ana. E lembrar que os livros também servem pra divertir não doeria, né? 😉

  2. 6, outubro, 2010 em 07:38 | #2

    Ótimi texto, Ana. Mas não há motivo para discordar de mim, eu nunca disse que os livros da LeYa são mashups, apenas que eles são anunciados assim na divulgação que já houve em jornais e em revistas. Só li o do Lúcio e na resenha mesmo escrevi:

    “Pelo uso de trechos da obra primária, cerca de 30% do total, segundo cálculo do próprio autor, pode-se considerar que ele, em seu primeiro romance impresso em papel, fez um mashup, como vem sendo anunciado em matérias e em colunas literárias. Mas o trabalho lembra mesmo um outro tipo de narrativa, até mesmo pelo que consta de fantástico em seus acréscimos (…) O trabalho de Lúcio Manfredi lembra mais a liberdade assumida pela FA de Farmer que as paródias do autêntico mashup…”

    Eu só não dei certeza quanto aos demais títulos porque não li.

  3. Ivo Heinz
    6, outubro, 2010 em 07:57 | #3

    Bom trabalho Ana.

    Também acho que tudo é FA.

    Sim, sempre vão haver os que levam a coisa a sério DEMAIS, lembra do Sci-Pulp ??? Ignore e vamos em frente.

  4. Alex de Souza
    6, outubro, 2010 em 08:54 | #4

    Antes mesmo de ler o resto do texto fui conferir o artigo do seu orientador e… não tem uma mísera ilustração do abade português. :(

  5. 6, outubro, 2010 em 09:00 | #5

    @Alex de Souza
    Tiraram na versão digital e eu nem conferi, sorry. É uma pena pq o trabalho do Barbosa Machado com as imagens é muito interessante. Vou editar a referência no texto.

  6. Alex de Souza
    6, outubro, 2010 em 11:02 | #6

    Querida Ana, informativo e despido de preconceitos seu artigo. Mas ainda não considero suficiente para me arriscar na leitura dos livros. Acho uma moda besta essa.

    Só avisa pro Lucio que, a tomar pelo artigo do Giron, ele precisa contratar seguranças e se preparar para o pogrom. :)

    Abraço.

  7. Antonio Luiz
    6, outubro, 2010 em 12:55 | #7

    Se alguém se interessar, olha aqui uma sugestão para uma primeira estrofe:

    Os Lusíadas nas Estrelas

    As naves e capitães renomados
    Que do imperial mundo Lusitânia
    Por astros nunca dantes explorados
    Derrotaram a barbárie e a cizânia
    Em perigos e guerras reforçados
    Pela tecnologia da raça humana
    E espécies estranhas ajuntaram
    À Federação que tanto dilataram.

  8. 6, outubro, 2010 em 15:42 | #8

    Eu acho que Xangô é uma paródia. Usa um personagem em outro contexto para ridicularizá-lo. Há também o pastiche, que é usar o um personagem dentro de seu contexto (o que seria muito próximo do fanfic). Por exemplo, alguns livros do Tarzan, que remetem a mesmo universo, ou as centenas de histórias “árabes” que surgiram depois das 1001 noites.

  9. 16, outubro, 2010 em 11:49 | #9

    Eu acho a ideia bem legal, considerando que se trabalha com obras em domínio público – o distanciamento, em termos cronológicos, evita problemas não apenas com autores e editoras mas também com fãs enlouquecidos.

    Eu escreveria um mashup de A Relíquia, do Eça de Queiroz, metendo o Raposão no meio do conflito entre Israel e Palestina. Que tal?

  1. 5, outubro, 2010 em 22:46 | #1
  2. 6, outubro, 2010 em 08:05 | #2
  3. 19, novembro, 2010 em 13:22 | #3
  4. 27, dezembro, 2010 em 21:35 | #4