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Arquivo de outubro, 2010

Submissões abertas para contos de Literatura Fantástica

19, outubro, 2010 Sem comentários

É bem conhecida a minha postura de que um escritor, mesmo que se sinta um romancista de carteirinha, deveria primeiro se habituar a escrever contos – até mesmo pela dificuldade que muitos tem em fechar uma ideia. Um dos pontos negativos dessa minha opinião, para muitos, é que não há onde publicá-los no Brasil, já que não temos uma cultura de revistas literárias e seriam poucas as oportunidades.

Com a retomado da literatura fantástica brasileira de 2005 para cá, o cenário tem mudado bastante e muitas chances tem surgido. Algumas vezes, infelizmente, o mercado continua mantendo o vício das antologias-loteamento, seja direta ou indiretamente. Porém, não é raro que surjam boas oportunidades para ter seu trabalho editado, divulgado e, por vezes, até mesmo receber algo por isso – mesmo que seja pouco.

No momento, as minhas sugestões são:

– Na web:

O Brasil é um dos países mais conectados do mundo, com presença maciça em redes sociais e milhares de blogs espalhados por aí. Ter o seu próprio cantinho é sempre bacana, mas muitos sentem falta de ter um editor por trás. O suporte de alguém mais experiente é sempre benvindo e os leitores gostam de um trabalho de seleção e divulgação direcionado. Ficam aqui duas sugestões:

Contos Fantásticos, do incansável Afonso L. Pereira, é aberto para todas as expressões da literatura fantástica, além de publicar entrevistas, divulgar livros e publicar resenhas. Para enviar contos, é só entrar no site, procurar a parte de contatos que o editor irá responder.

1000 Universos , ezine do site Café de Ontem vai estrear em 2011 e já está aceitando contos. É só seguir as regras e colocar mãos a obra.

– Impressos:

O aquecimento do mercado editorial favoreceu o aparecimento de novas editoras e selos dedicados exclusivamente à literatura fantástica. E felizmente nem todos com a visão estreita de que o autor iniciante tem que pagar para trabalhar. Inscrições abertas para as mais diferentes temáticas:

Insanas – as loucuras do universo feminino em histórias escritas somente por mulheres. Nada de romance açucarado ou vampiros ao Crepusculo. O negócio aqui é a crueldade e o sadismo femininos. Sim, é só para mulheres – mudança de sexo é aceita.

VII Demônios – Cada livro, um demônio como padrinho. Cada demônio representa um pecado, um dos nossos lados mais escuros. Cada pecado é homenageado em um livro dessa coleção do Estronho.

Cursed City – Gosta do Velho Oeste? E de Terror? Prato cheio é mais essa antologia organizada pelo Guardião do Estronho. Os fracos aqui não tem vez.

Dieselpunk – Vapor é bom, mas fumaça é muito melhor. Depois do sucesso de Vaporpunk, a editora Draco repete a parceria com o mestre da História Alternativa Gerson Lodi Ribeiro para fazer a primeira coletânea nacional do subgênero dieselpunk. Liguem os motores!

No próximo post, uma lista de editoras para mandar o seu trabalho mais longo.

Afinal, mashup e Ficção Alternativa é a mesma coisa?

5, outubro, 2010 9 comentários

Não, não é. E por isso, acho que posso dizer que ainda não temos nenhum mashup brasileiro.

(Já começo dizendo que só li um dos cinco novos títulos – 4 pela LeYa/Lua de Papel e 1 da Tarja. Mas me fio na palavra de dois autores e um dos críticos mais renomados da Ficção Fantástica nacional e me permito discordar do querido Romeu Martins)

O que é um mashup?

É um fenômeno bem típico da era digital, mas que vem de longe. O mashup acontece quando se pega dois elementos que se misturam para gerar um terceiro. Há aplicações web assim – há músicas assim. E na literatura, também.

(Nas artes visuais, a colagem é um fenômeno bastante conhecido. Um dos meus primeiros trabalhos profissionais foi na parte iconográfica da Coleção Diogo Barbosa Machado na BN. O abade português, no século XVIII, montou a sua coleção de gravuras de forma bem peculiar: cortava o retrato de um livro, a moldura de outro, o texto de outro e por vezes ainda fazia sequências na mesma página. Infelizmente, não tem as imagens digitalizadas ainda. Vocês podem saber mais sobre os retratos no texto que meu orientador de mestrado escreveu sobre a coleção – infelizmente a versão digital também não tem imagens.)

Saindo um pouco da literatura fantástica, recentemente uma jovem – jovem mesmo, estudante de Ensino Médio – publicou um romance que tornou-se um best seller em dias. A fórmula? Misturar trechos de “blogs, romances autobiográficos e de letras de música pop e hip hop” com muito pouco texto original – menos de 25% da obra, que tem no seu final uma lista com 5 páginas só com as fontes do romance. As acusações de plágio foram respondidas pela autora Helene Hegemann como vindas de quem não entende que na cultura atual, o mais importante é a autenticidade e não a originalidade, e que seu trabalho estaria na mesma linha dos mashups de música e imagem. Convincente? Pros jurados do segundo maior prêmio literário da Alemanha, foi.

Então, o que definiria um mashup literário?

O mashup usa o texto. É uma colagem de duas (ou mais) obras, fazendo uma terceira completamente diferente. Não usa somente o enredo, premissas ou personagens. É uma intervenção no concreto do texto, não no seu subjetivo.

E a diferença para a Ficção Alternativa?

A Ficção Alternativa é quando você dá um rumo diferente a histórias já contadas ou a personagens que já existiam. Por exemplo? ‘O xangô de Baker Street’ do Jô Soares ou ‘Um estudo em esmeralda’ do Neil Gaiman deram uma nova visão ao universo ficcional criado por Conan Doyle. ‘A liga dos cavaleiros extraordinários’ do Alan Moore juntou um monte de personagens de autores e universos ficcionais distintos.

(Diferença básica entre F.A. e fanfic? Se o que você está fazendo utiliza material caído em dominio público ou com autorização dos detentores dos direitos autorais, é F.A. – caso contrário, é fanfic )

O mashup, por definição seria um tipo de Ficção Alternativa. A diferença é: para ser um mashup, a base com o que o escritor trabalha não é somente a trama, mas o texto – como já explicamos lá em cima.

Nesse sentido, o mashup entrou na Ficção Fantástica com Pride and Prejudice and Zombies, já resenhado e comentado aqui. A Quirk continuou, com Sense sensibility and sea monsters e o aguardado Android Karenina, além de Dawn of the dreadfuls, uma prequel para PPZ que não usa textos da Auten e portanto é F.A. e não mashup.

Os textos da LeYa e o livro da Tarja são uma iniciativa louvável, mas não são mashup. Eles partem da trama e não do texto. Mas como o sucesso de PPZ colocou o mashup em evidência e há um desconhecimento da Ficção Alternativa, tudo foi colocado no mesmo saco.

O que é bem injusto, pelo menos no caso do livro que li.

Lucio Manfredi é um velho conhecido do fandom, tendo participado de muitas coletâneas. Ele estava devendo uma obra maior e é bem significativo do senso de humor e da iconoclastia do escritor que sua estreia na seara dos romancistas tenha sido com ‘Dom Casmurro e os discos voadores’ – nem vou dizer que ele entende do assunto.;)

O livro é uma recriação deliciosa do texto de Machado, muito mais que um mero trabalho de colar trechos nas partes certas. Sem querer ser mais realista que o rei, ou mais Machadiano que o Machado, ele dá ao livro um sabor próprio sem se afastar do texto original.

Aliás, eu gostei mais do Bentinho do Lúcio, sendo sincera aqui. Ele mantém a obsessão, a paranóia e o ensimesmamento do original, mas ele é um pouco mais irônico e lúcido. Capitu mantém sua ambiguidade – assim como Escobar.

O conflito principal está lá, mantido. A tensão entre os personagens também. A diferença é que Bentinho suspeita que existam seres de outro planeta rondando o Rio de Janeiro – ou isso ou ele está ficando maluco.

A trama extra-triângulo amoroso é cheia de reviravoltas e pistas falsas. Nem todos são o que parecem ser. Alguns são mais, outros menos – e tem vezes em que se é pego completamente de surpresa.

Uma das melhores coisas do livro são as referências. Nessa época pós-moderna, tem sido muito comum o despachar de referências, citações e chaves secretas que só entendidos podem desvendar, transformando o hábito de ler um numa grande caçada às referências: como se ler fosse algo similar a aqueles passatempos de caça-palavras, em que vence o leitor que conseguir encontrar mais. Lucio consegue manter um equilibrio raro nesse quesito. Há as piadas internas, claro, principalmente com uma das maiores influências do autor, P. K. Dick – mas no geral, autores e ideias se cruzam com a trama de Machado e o texto de Lucio Manfredi de forma fluida, bem alinhavada. Não é necessário (re)conhecê-las ou decifrá-las para apreender o livro como um todo – descobri-las só o torna mais divertido ainda.

No twitter e sempre que perguntado, o autor responde que não usou o texto de Machado, no máximo uns 30% – lendo a obra, não creio que tenha chegado a isso. São pouquissimas as frases ou trechos trazidos diretamente do original, fazendo do livro uma Ficção Alternativa.

O autor de ‘Memórias desmortas’, Pedro Vieira, também sempre definiu seu livro mais como uma Ficção Alternativa do que como mashup – até porque a sua intenção sempre foi de dar uma continuidade à história, mais do que recontá-la.

Conclusão?

Não temos mashups nacionais, apesar da grita dos que levam a literatura a sério demais -exemplo aqui. Temos uma boa safra de Ficção Alternativa direcionada ao público adolescente que tem uma imagem super errada dos clássicos.

Se você se animou com isso e está disposto a pegar algum dos clássicos da literatura portuguesa, taí uma listinha de sugestões feitas no Twitter por Antonio Luiz M. C. da Costa, Cirilo Lemos e moi:

– Eurico, O Ciborgue

– A ilha dos amores zumbis

– A Morgadinha-bruxa dos Canaviais

– As pupilas do Senhor Reitor do Inferno

– Amor de Danação

– A Cidade a Vapor e as Serras.

– Dr. Pessoa, Dom de Campos, Sr. Caieiro e Mr. Reis

– Os EspaçoLusíadas

– O crime de Padre Amaro, o vampiro

– Ilustre Casa de Ramires, com treinamento de highlanders portugueses…