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Arquivo de setembro, 2010

O último herói italo-americano

2, setembro, 2010 4 comentários

It’s me, Mario!

A geração mais nova de escritores de fantasia, que beiram os vinte anos, adora dizer que se inspira nos jogos de videogames. Depois dessa afirmação, sai enumerando grandes clássicos dos cartuchos, CDs e DVDs como Final Fantasy, Zelda, Kingdom Hearts, Secret of Mana, Chrono Trigger, Castlevania… Até Street Fighter e Tekken já vi serem listados.

Mas uma dúvida sempre me atormentou: e o Mario?

(Pausa para piadas batidas envolvendo armários)

(Talvez a pausa precise ser maior para que vocês possam refletir. Sim, a ficha vai cair. As lembranças eróticas sobre aquele armário da casa do seu vizinho gostosão vão se desvanecer e você irá bater a mão na testa e dizer ‘Ah, aquele Mario’)

Ele passou de coadjuvante no Atari a protagonista do Grande Império Nintendo, uma das peças da Guerra Fria dos Videogames. Houve um tempo, meninos e meninas, em que as pessoas paravam de falar umas com as outras por causa de Sega VS Nintendo – ou melhor, Sonic VS Mario. O ouriço não teve a menor chance (ele não é porco espinho, ok?) contra o carismático encanador que já morou no Brooklyn com seu irmão esquisito e hoje mora no Reino dos Cogumelos, sendo o eterno amor platônico de sua governante, a Princesa Peach. Sim, Pêssego. E ela governa o reino dos cogumelos. Eu não disse que era a coisa mais interessante/original/lógica do mundo, disse?

Desde sua estréia, Mario passou por muitas mudanças e desventuras. Pior do que o que ele passou, só a sina da pobre Peach, que é arrastada de um lado para o outro por uma tartaruga gigante com espinhos, chamada Bowser, uma encarnação mais simpática daquele monstro que destruía Toquio.

(Aliás, se você é velho como eu e nintendete, provavelmente jogou ‘Sim City’ pra SuperNES e viu Bowser destruir seu lindo bairro industrial. Malditos japoneses e sua mania de culpar a poluição por monstros gigantes!)

Todo o tipo de criatura estranha já passou pelos jogos de Mario: um dinossauro fominha que come até pedra chamado Yoshi – e sua imensa e multicor família; Wario, a versão amarela do nosso encarnado herói (existe um Waluigi, mas não me perguntem); cogumelos de diversos tipos e tamanhos; correntes com bolas que latem e se comportam como cachorros; estrelas, bombinhas rosas que são legais; bombinhas pretas que NÃO são legais…

O universo de Mario já emprestou seu nome para uma infinidade de jogos que não os tradicionais, em variantes de Tetris, jogos de corrida, de tabuleiro, de tênis. Seus personagens já estiveram em desenhos animados e deram origem a isso:

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Sim, são Dennis Hopper, Bob Hoskins e John Leguizano. Carreiras tem que acabar e começar em algum ponto, certo?

(Mas a trilha sonora tinha Queen, Roxette, George Clinton fazendo cover do Was (Not Was), Megadeth e Joe Satriani. Antes dos mp3 e num país avesso a singles, muita gente comprou o album)

(Tá, eu confesso: comprei porque tinha Extreme, qual o problema?)

‘Mas, Ana, qual o seu ponto?’

Bem, esta é uma resenha inédita no FC e Afins: é uma resenha de um jogo!

E tem a ver, pois Mario habita um mundo de fantasia. ( se você acha absolutamente NORMAL falar com cogumelos…)

Meu filho ganhou um Nintendo Wii de aniversário. E como parte do pacote, teve direito a escolher um jogo. O preferido? Mesmo antes de Lego-qualquer-série-de-sucesso? Super Mario Galaxy 2. Sim, fiquei surpresa.

E fiquei mais ainda com o jogo em si.

Um ponto: não joguei muito o SMG 1. Minha referência mais recente seriam os jogos de N64 – aliás, até jogar o SMG 2, o Super Mario 64 era o meu preferido, seguido de Yoshi’s Island e seus desenhinhos lúdicos.

A história é inédita e revolucionária: Bowser captura a Peach e a leva para dar uma volta no universo infinito. Sério: gastam tanto com gráficos inovadores e melhorando jogabilidade, será que não dava para gastar um trocado com a história? Não é papo de feminista, juro. É só que mesmo a governante mais burra de todo o universo já teria percebido que aquele castelo não é o lugar mais seguro para manter a sede de um governo. Ainda mais com cogumelos medrosos tomando conta.

Não adianta: em termos de plot e coisas do tipo, Super Mario RPG ainda é o ponto de referência. E posso sonhar que eles façam algo do tipo pro Wii?

Certo, depois ele voa pelo espaço numa nave-planeta que fica com a sua cara (literalmente), que pertence a um grupo de seres estreloides. A nave serve como base entre as fases, onde você pode conseguir informações, vidas extras e se distrair.

O jogo tem todos os elementos dos antigos clássicos, com algumas novidades. Mario pode ser uma mola, um fazedor de nuvens, uma abelha, uma pedra que rola. A florzinha que atira também está de volta, assim como Yoshi, o fofo dinossauro comilão. Os fantasminhas tímidos te atazanam em algumas fases. Os gráficos seguem o padrão ‘Mario Bros’, tanto em cores como em elementos: bichos fofinhos e nada muito berrante.

O legal é a variedade. Conforme o jogo avança, a dificuldade aumenta, mas nada que impeça uma criança de 8 anos de conseguir as 70 estrelas e derrotar Bowser – ou uma de 32 de ficar catando todas as estrelas possíveis para abrir todos os mundos que existem pelo mero fator de diversão. A jogabilidade é boa, com movimentos bem variados e (na maioria das vezes) fáceis de executar. Além do que muita coisa é semelhante ao jogo de N64.

Voltemos à minha pergunta inicial: boa parte dos escritores de hoje cresceu com videogames – eu sou do tempo do Atari, mas sempre gostei de acompanhar a área, mesmo que de longe. São pessoas capazes de debater qual Final Fantasy tem melhor roteiro ( é o VI e isso é indiscutível, aliás).

Então, qual é o motivo dos irmãos Mario (imagino que o nome deles sejam Mario Mario e Luigi Mario) serem pouco lembrados por esses escritores?

Simples.

Eles não são os heróis pré-destinados. Alto, louros, fortes e inteligentes, que nasceram com uma missão e irão cumpri-la.

Nem são os anti-heróis que aprendemos a amar. Cínicos, sagazes, irônicos, habilidosos e que só fazem o que é certo porque sabem que vão levar alguma vantagem.

E nem são como Frodo, o herói relutante da Fantasia por excelência. Pois nenhum dos nossos bigodudos amigos tem relutância a cumprir seu dever.

Eu acho que eles são deixados de lado porque são absolutamente comuns. Pessoas como eu e você que deram o azar de estarem no lugar errado na hora errada. Eles são narigudos, pobres, esquisitos, cheios de problemas, carecas, falam engraçado. Quem gosta de heróis assim?

Bom, eu gosto.

(O post de hoje é em homenagem ao José Roberto Vieira, autor do ‘Baronato de Shoah’ que faz aniversário hoje – e que assim como o Mario Mario também… gosta de pizza)