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O futuro do pretérito a vapor, um ano depois.

Hoje, o escritor e jornalista Romeu Martins lembrou que é o aniversário da coletânea Steampunk. Um momento mais do que adequado para registrar minhas opiniões sobre a obra e refletir sobre sua repercussão.

Acima de qualquer coisa, temos que reiterar algo: foi a coletânea brasileira de contos de ficção fantástica que mais repercutiu no fandom, nacional e internacional. (Sim, fandom. Infelizmente, não foi este livrinho o Santo Graal que os escritores brasileiros de ficção especulativa esperam há anos. Um dia, ele chega, junto com Papai Noel e D. Sebastião, e a Academia Brasileira de Letras vai nos chamar a todos para tomar chá de fardão).

Toda a regra tem exceção; no caso daquela velha máxima do Nelson Rodrigues (não somos parentes, apesar da acidez semelhante) ‘Toda a unanimidade é burra’, a exceção é a coletânea da Tarja. Não houve comentários negativos, apesar de alguns resenhistas terem dado destaques positivos e negativos. A lista bem extensa de resenhas é esta:

Comentário no Correio Fantástico
Comentário no World SF
Comentário no Mensagens do Hiperespaço
Resenha de Larry Nolen (em inglês)
comentada no Cidade Phantastica
Twitterresenha de Edgar Refinetti no Cidade Phantastica
Resenha de Ricardo França no Cidade Phantastica
Resenha de Pedro Vieira
Resenha de Giseli Ramos
Resenha na revista online RRAULR
Resenha na Paragons
Resenha de Bruno Schlater
Comentário de Roberto de Sousa Causo
Resenha de Cristina Alves em duas partes I e II
Ana Carolina Silveira

‘Ok, Ana, nós sabemos o que estes resenhistas acharam. Queremos saber a SUA opinião ou não estaríamos aqui.’

É nessas horas que eu não gosto de ser amiga de outros escritores. Afinal, considero 89% dos autores presentes na coletânea como amigos. Bom, eles sabem que eu sou sincera.

Ser resenhista pode ser o caminho mais curto para perder seus amigos...

O grande lance de Steampunk – histórias de um passado extraordinário , um dos toques que fizeram o livro destacar-se entre as muitas coletâneas de ficção fantástica dos últimos dois anos foram duas histórias. Não que as outras sete sejam ruins.

Porém, os contos de Jacques Barcia e Fábio Fernandes conseguiram ser vaporosos sem o cheiro de naftalina que os demais trouxeram. Não se importaram em imitar escritores de dois séculos atrás, seja Poe, Verne, Lovecraft ou Machado.

Apesar de ‘Uma vida possível atrás das barricadas’ ser também New Weird – seu autor é o único brasileiro a assumida e reconhecidamente escrever dentro desse movimento, nem por isso deixa de ser vapor. Jacques Barcia cria um cenário único, fugindo do século XIX histórico, contando uma história de amor inusitada entre dois integrantes das classes baixas. Não é sobre cientistas, espiões, tramas internacionais. É sobre um autômato e uma golem e a vida possível atrás das barricadas de uma cidade que se rebela contra o status quo. Tocante, bem escrito e imaginativo.

Seria o melhor conto do livro isolado, não fosse ‘Uma breve história da maquinidade’ de Fábio Fernandes. Viktor Frankenstein e seu método são recorrentes nos textos do autor. Em um texto basicamente narrativo, ele traz mais uma versão da historia do médico com complexo de Deus que, depois do embate com sua criatura resolve dedicar-se a autômatos. O único ponto ruim é que dá vontade de destrinchar melhor esse universo.

Depois, na minha escala de gosto, vem ‘A música das esferas’. Mas preciso apontar que conheço o universo apresentado por Alexandre ‘Lancaster’ Soares há anos, então sou familiarizada com a narrativa, os personagens e o cenário. O conto fica meio perdido, por ser mais ingênuo e com um tom mais juvenil que os demais, e o final compromete um pouco. Porém, o jovem Adriano tem tudo para virar herói teen.

Steampunk também pode ser art decô

Gosto muito do cenário do ‘Cidade Phantástica’, de Romeu Martins, e do uso que faz de personagens tão diferentes. Porém, a trama me pareceu muito rocambolesca, ao contrário de ‘Por um fio’, de Flávio Medeiros, que poderia ter ousado mais nas máquinas vernianas e ficou tímido.

‘A flor do estrume’ de Antonio Luiz da Costa é um exemplo do que falei sobre tentar mimetizar autores de época. Apesar do talento do escritor e do conjunto cenário-trama, que ficou interessantíssimo, o resultado final ficou pesado. ‘O plano de Robida’ de Roberto Causo poderia ter se beneficiado de um bom corte, ficou grande demais, por vezes cansativo e sem final, apesar de uma boa construção de personagens e tramas.

Dois contos, na minha nada humilde opinião, poderiam tranquilamente ter ficado de fora da coletânea. ‘Dobrão de prata’, de Claudio Villa, não é ruim, muito pelo contrário é o melhor texto do autor que li até agora. Porém, não cabe numa antologia temática de steampunk. E Gian Celli colocou seu conto para abrir e forneceu o texto mais fraco, que adiciona muito pouco ao livro. O seu ‘Assalto ao trem pagador’ tem elementos que se encontram nos demais contos, e ainda por cima tem muito mais cara de primeiro capítulo do que de um texto fechado. Talvez um texto introdutório de peso, explicando sobre o gênero e os motivos de cada conto estar ali fizesse mais jus ao bom trabalho de ter reunido esse bom elenco, apesar das falhas como editor, ao incluir um conto fora da temática e permitido que contos ficassem sem final.

Ao fim e ao cabo, a coletânea deu visibilidade ao gênero dentro do fandom e apresentou escritores brasileiros ao público fã da cultura do vapor. Os autores envolvidos continuam a fazer vapor: Barcia e Fernandes vão entrar numa nova edição da coletânea de Jeff Vandermeer sobre o gênero, Romeu Martins e Antonio Luiz da Costa prosseguem explorando os universos apresentados nos seus contos, Alexandre Soares tem grandes planos para seu herói.

Talvez essa continuidade seja o grande legado do livro.

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  1. 25, julho, 2010 em 20:49 | #1

    Assino embaixo e acho legal citar a convergência entre as resenhas.

    ´Para mim, até o momento, é a obra da década da ficção científica nacional, pela repercussão e qualidade.

  2. 25, julho, 2010 em 20:54 | #2

    Opa, Ana! Que ótimo poder encerrar o primeiro ano da coletânea com uma resenha tão completa quanto à sua! Já está lá a chamada na seção Torre de Vigia:

    http://cidadephantastica.blogspot.com/2010/07/torre-de-vigia-29.html

    Brigadão! 😉

  3. 25, julho, 2010 em 21:03 | #3

    # Eu concordo com bastante coisa do que está aqui. Não sei se o conto do Lancaster está tão deslocado assim. Claro que sou suspeita, porque sou fã de juvenil e ninguém disse que seria o tema seria steampunk adulto. 😛
    # Para ser sincera, gostei de praticamente todos os contos do livro. Na época que eu li, eu mal sabia o que era steampunk (por mais que eu gostasse do clima vitoriano) e não vou negar que parte do interesse que passei a ter pelo tema foi depois de ver várias facetas nele no livro.
    # Acho que a coletânea é uma boa introdução da temática steampunk a quem nunca viu nada a respeito, justamente porque a maioria dos contos são bons de um jeito ou de outro. Acho que mais que o legado dos autores que escreveram no livro, ele vai gerar frutos de leitores (e outros autores, por que não?) a se aventurar na área.
    # De um jeito ou de outro, é uma das poucas coletâneas de vários autores em que o saldo de contos que gostei em relação aos contos totais foi bem acima de 50%. 😛

  4. 26, julho, 2010 em 10:48 | #4

    A resenha mais “pesada” que li sobre a coletânea até agora. Mas gostei igualmente. E tenho medo de acabar concordando contigo, caso a leia algum dia. Tenho uma séria implicância com coletâneas de ficção especulativa brasileiras; no máximo as considero “boas”, nunca “muito boas” ou “excelentes”. Espero que isso mude algum dia.

  5. 26, julho, 2010 em 11:01 | #5

    @Ana Carolina Silveira

    Pela repercussão? Certamente. Em relação a qualidade, acho que existem trabalhos melhores – como o livro de contos do Carlos Orsi, ‘Tempos de fúria’, o romance do Jim, ‘Outros Brasis’ do Gerson. A não ser que você pense em obras coletivas, aí sim o título está isolado.

  6. 26, julho, 2010 em 11:02 | #6

    @Romeu Martins

    Tamos aqui pra isso, Romeu :)

  7. 26, julho, 2010 em 11:10 | #7

    @Adriana “Strix” Rodrigues

    Dri, o conto do Lancaster ficou deslocado por ser o único que apostou nesse viés mais ingenuo – embora talvez só o conto do Antonio tenha ficado adulto demais.

    Pra mim, o grande problema em relação a temática é que os contos ficaram muito presos a cientistas/espiões – tirando o do Jacques Barcia. Dá a impressão que o steampunk é só isso, quando na verdade é muito mais variado.

    Porém, na média geral, a coletânea é muito superior a outras que sairam no ano passado e realmente podem incentivar outros escritores a se aventurar.

  8. 26, julho, 2010 em 11:29 | #8

    @Ramiro Catelan
    Ramiro, eu peguei pesado por serem escritores de quem eu gosto muito, são quase todos amigos muito queridos. Então, eu sei que qualquer coisa que os deixasse chateados, era só conversar.
    Outra coisa é que eu li todas as outras resenhas e fiquei meio assim com tantos elogios, aí reli a coletânea sendo bem mais crítica.

  9. 1, agosto, 2010 em 13:35 | #9

    Ana,

    Muito construtiva a sua resenha. Aprendemos muito a melhorar o que se escreve.
    Fiquei com muita vontade de ler, por exemplo, o ‘Uma vida possível atrás das barricadas’ depois de seus comentários.

    Abraços!

  10. 5, agosto, 2010 em 21:14 | #10

    realmente, os comentários sobre a coletânea são muito positivos. ainda não li e prefiro não tomar partido, mas é muito bom ler outras resenhas com boas críticas.
    no mais, acho que a coletânea por si só deu bastante gás a novos escritores do gênero.

  1. 25, julho, 2010 em 21:00 | #1
  2. 25, julho, 2010 em 22:30 | #2