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Arquivo de julho, 2010

O futuro do pretérito a vapor, um ano depois.

20, julho, 2010 10 comentários

Hoje, o escritor e jornalista Romeu Martins lembrou que é o aniversário da coletânea Steampunk. Um momento mais do que adequado para registrar minhas opiniões sobre a obra e refletir sobre sua repercussão.

Acima de qualquer coisa, temos que reiterar algo: foi a coletânea brasileira de contos de ficção fantástica que mais repercutiu no fandom, nacional e internacional. (Sim, fandom. Infelizmente, não foi este livrinho o Santo Graal que os escritores brasileiros de ficção especulativa esperam há anos. Um dia, ele chega, junto com Papai Noel e D. Sebastião, e a Academia Brasileira de Letras vai nos chamar a todos para tomar chá de fardão).

Toda a regra tem exceção; no caso daquela velha máxima do Nelson Rodrigues (não somos parentes, apesar da acidez semelhante) ‘Toda a unanimidade é burra’, a exceção é a coletânea da Tarja. Não houve comentários negativos, apesar de alguns resenhistas terem dado destaques positivos e negativos. A lista bem extensa de resenhas é esta:

Comentário no Correio Fantástico
Comentário no World SF
Comentário no Mensagens do Hiperespaço
Resenha de Larry Nolen (em inglês)
comentada no Cidade Phantastica
Twitterresenha de Edgar Refinetti no Cidade Phantastica
Resenha de Ricardo França no Cidade Phantastica
Resenha de Pedro Vieira
Resenha de Giseli Ramos
Resenha na revista online RRAULR
Resenha na Paragons
Resenha de Bruno Schlater
Comentário de Roberto de Sousa Causo
Resenha de Cristina Alves em duas partes I e II
Ana Carolina Silveira

‘Ok, Ana, nós sabemos o que estes resenhistas acharam. Queremos saber a SUA opinião ou não estaríamos aqui.’

É nessas horas que eu não gosto de ser amiga de outros escritores. Afinal, considero 89% dos autores presentes na coletânea como amigos. Bom, eles sabem que eu sou sincera.

Ser resenhista pode ser o caminho mais curto para perder seus amigos...

O grande lance de Steampunk – histórias de um passado extraordinário , um dos toques que fizeram o livro destacar-se entre as muitas coletâneas de ficção fantástica dos últimos dois anos foram duas histórias. Não que as outras sete sejam ruins.

Porém, os contos de Jacques Barcia e Fábio Fernandes conseguiram ser vaporosos sem o cheiro de naftalina que os demais trouxeram. Não se importaram em imitar escritores de dois séculos atrás, seja Poe, Verne, Lovecraft ou Machado.

Apesar de ‘Uma vida possível atrás das barricadas’ ser também New Weird – seu autor é o único brasileiro a assumida e reconhecidamente escrever dentro desse movimento, nem por isso deixa de ser vapor. Jacques Barcia cria um cenário único, fugindo do século XIX histórico, contando uma história de amor inusitada entre dois integrantes das classes baixas. Não é sobre cientistas, espiões, tramas internacionais. É sobre um autômato e uma golem e a vida possível atrás das barricadas de uma cidade que se rebela contra o status quo. Tocante, bem escrito e imaginativo.

Seria o melhor conto do livro isolado, não fosse ‘Uma breve história da maquinidade’ de Fábio Fernandes. Viktor Frankenstein e seu método são recorrentes nos textos do autor. Em um texto basicamente narrativo, ele traz mais uma versão da historia do médico com complexo de Deus que, depois do embate com sua criatura resolve dedicar-se a autômatos. O único ponto ruim é que dá vontade de destrinchar melhor esse universo.

Depois, na minha escala de gosto, vem ‘A música das esferas’. Mas preciso apontar que conheço o universo apresentado por Alexandre ‘Lancaster’ Soares há anos, então sou familiarizada com a narrativa, os personagens e o cenário. O conto fica meio perdido, por ser mais ingênuo e com um tom mais juvenil que os demais, e o final compromete um pouco. Porém, o jovem Adriano tem tudo para virar herói teen.

Steampunk também pode ser art decô

Gosto muito do cenário do ‘Cidade Phantástica’, de Romeu Martins, e do uso que faz de personagens tão diferentes. Porém, a trama me pareceu muito rocambolesca, ao contrário de ‘Por um fio’, de Flávio Medeiros, que poderia ter ousado mais nas máquinas vernianas e ficou tímido.

‘A flor do estrume’ de Antonio Luiz da Costa é um exemplo do que falei sobre tentar mimetizar autores de época. Apesar do talento do escritor e do conjunto cenário-trama, que ficou interessantíssimo, o resultado final ficou pesado. ‘O plano de Robida’ de Roberto Causo poderia ter se beneficiado de um bom corte, ficou grande demais, por vezes cansativo e sem final, apesar de uma boa construção de personagens e tramas.

Dois contos, na minha nada humilde opinião, poderiam tranquilamente ter ficado de fora da coletânea. ‘Dobrão de prata’, de Claudio Villa, não é ruim, muito pelo contrário é o melhor texto do autor que li até agora. Porém, não cabe numa antologia temática de steampunk. E Gian Celli colocou seu conto para abrir e forneceu o texto mais fraco, que adiciona muito pouco ao livro. O seu ‘Assalto ao trem pagador’ tem elementos que se encontram nos demais contos, e ainda por cima tem muito mais cara de primeiro capítulo do que de um texto fechado. Talvez um texto introdutório de peso, explicando sobre o gênero e os motivos de cada conto estar ali fizesse mais jus ao bom trabalho de ter reunido esse bom elenco, apesar das falhas como editor, ao incluir um conto fora da temática e permitido que contos ficassem sem final.

Ao fim e ao cabo, a coletânea deu visibilidade ao gênero dentro do fandom e apresentou escritores brasileiros ao público fã da cultura do vapor. Os autores envolvidos continuam a fazer vapor: Barcia e Fernandes vão entrar numa nova edição da coletânea de Jeff Vandermeer sobre o gênero, Romeu Martins e Antonio Luiz da Costa prosseguem explorando os universos apresentados nos seus contos, Alexandre Soares tem grandes planos para seu herói.

Talvez essa continuidade seja o grande legado do livro.

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