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Servir no Céu ou reinar no Inferno?

“A vida de Dolens ardia entre dois fogos: o lume do sonho e as faíscas do pesadelo.”

O centésimo em Roma - capa

Vocês sabem o que países tão diferentes entre si como Romênia, Israel, Portugal e Inglaterra tem em comum? Um dia, muitos anos atrás, todos – ou pelos menos os territórios que pertencem a eles hoje – fizeram parte da mesma unidade política, o Império Romano.

Nossas instituições, nossa forma de governo, nossa ‘religião oficial’… boa parte da origem da cultura do Ocidente vem de Roma e seus dominios. Urbi et orbi. Mesmo a língua em que escrevo esta resenha é romana – ou melhor, ‘romance’.

A cidade na Península Itálica virou nosso eterno Fantasma do Natal Passado, ponto de comparação quase universal. Por exemplo a própria ideia de ‘Império’, quimera perseguida na Idade Média por Carlos Magno e seus descendentes e renascida por várias vezes em palavras e conceitos. Kaiser, czar… palavras que denominam o governante mais poderoso vem de César, o título imperial romano.

(Não vou me alongar aqui nas questões históricas dos impérios coloniais e os do século XIX, mas deixo aqui a recomendação: leiam Eric Hobsbawn, ‘A era dos impérios’)

Hoje, a comparação sempre constante é com a influência política e econômica dos Estados Unidos – o chamado ‘império americano’. Inclusive o emblemático 11 de setembro de 2001 foi comparado à queda de Roma, invadida pelos ‘bárbaros’.

A Roma histórica caiu fisicamente, deixando o seu legado institucional a cargo da religião que a príncipio foi sua vítima, depois um misto de algoz e herdeiro, o cristianismo. A Roma ‘americana’, invadida por ‘godos’ em nome de Alá, permaneceu inteira, se não intacta. No entanto, a invasão deixou impressões que não se apagaram.

Foi essa impressão um dos motivos que levaram o escritor e roteirista Max Mallmann a passar seu quinto romance em Roma – o Império e a cidade. A influência latina no mundo ocidental e a paixão do autor pelos cenários urbanos (três de seus livros anteriores passam-se em cenários urbanos, mesmo que dentro de uma base espacial) também influiram, além de motivos inconscientes.

Roma é uma constante na literatura. De Gore Vidal a Marion Zimmer Bradley, vários foram os autores que se aventuraram pelos caminhos que levavam a capital do mundo. E se formos acreditar nos ditos populares, todos levam lá. Então, todos os gêneros já passearam pelas estreitas ruas entre as sete colinas: Ficção Científica, Fantasia, História Alternativa, Romance, Terror e Suspense. Este último tornou-se tão popular que gerou um subgênero, o dos ‘detetives de toga‘.

E foi por essa trilha que o gaucho seguiu em ‘O centésimo em Roma’, seu terceiro livro pela editora Rocco, lançado neste mês de abril. Ao acompanharmos a vida e as ambições de Publius Desiderius Dolens, centurião que acaba de chegar na cidade para ser o novo primus pilus dos pretorianos, somos envolvidos na trama do assassinato de um senador. A contragosto, Dolens aceita fazer a investigação, ao mesmo tempo em que tenta escalar a complicada hierarquia social romana para chegar ao apice possivel a ele, a ordem equestre.

E nisso, conhecemos a Roma com sua cara múltipla, de gladiadores, judeus, gregos, cristãos, padeiros, prostitutas, sacerdotes falsos e verdadeiros. Inclusive somos apresentados a um legítimo lusitano, dono de uma taverna.

A história desse ambicioso romano, que saiu de um dos bairros mais miseráveis da cidade, é contada em duas linhas narrativas. Pois a base de ‘O centésimo em Roma’ é o livro ‘Vita Dolentis’, de Quintus Trebellius Nepos, que foi comandado pelo centurião. Entremeados com trechos da narrativa contemporânea, testemunhada por Nepos, há trechos em que acompanhamos de um outro ponto de vista, nos quais é a voz do autor brasileiro que fala.

É impossível não se identificar com o protagonista, complexo e paradoxal, dividido entre o dever e a ambição, o amor pela mulher germana e a pátria romana. Dolens é irônico e cruelmente sincero ao refletir sobre seu próprio valor, muito mais do que Nepos – a ironia que é quase marca registrada de Max Mallmann.

A extensa pesquisa histórica traz profundidade ao cenário, apresentado de forma magistralmente suave no decorrer do livro. Roma nos parece tão viva quanto Nova Iorque ou o Rio de Janeiro, e os personagens, apesar de não parecerem romanos anacrônicos, nos dão a sensação de serem conhecidos. Ambientado no ‘Ano dos Quatro Imperadores’, em que a instabilidade ameaçava a continuidade do império,  o livro trata da política romana de uma forma que a torna estranhamente familiar para nós, brasileiros.

Sem contar, claro, os deliciosos pensamentos céticos/heréticos de Dolens tentando entender os cristãos, aquelas figuras estranhas que começam a aparecer em Roma.

No final, o autor acrescentou um posfacio, onde explica o processo de confecção e pesquisa do romance, inclusive listando algumas das obras mais importantes consultadas (por aquelas engraçadas coincidências, uma é o dicionário de latim de Ernesto de Faria, pai de minha chefe na Biblioteca Nacional. Curiosamente, não fui que o indiquei ao autor), as referências implicitas e explicitas, além de lista de personagens.

Para quem gosta de mistério ou de Roma – ou de ambos – uma leitura insuperável.

***

Agora, para você, meu colega escritor iniciante:

‘O centésimo em Roma’ é leitura importantíssima, por alguns pontos:

– Pela meticulosidade e precisão da pesquisa envolvida

– Pela mostra de como trabalhar com referências

– Pela boa construção de personagens e tramas

– E por mostrar que um brasileiro pode escrever sobre Roma com perfeição.

Atenção: A resenha foi escrita com base numa proof-reading. Quaisquer incorreções serão corrigidas com o livro final em mãos

Autor: Max Mallmann

ISBN: 978-85-3252-507-9

Gênero: Histórico

Formato: 16cm x 23cm

Páginas: 424

Capa: Christiano Menezes (estúdio Retina78)

Preço de capa: R$ 49,00

Lançamentos:

Rio de Janeiro- quinta-feira, dia 15 de abril, na Livraria da
Travessa de Ipanema
(Rua Visconde de Pirajá, 572), a partir das 19:30.

Porto Alegre – 6 de maio, também uma quinta-feira, no mesmo
horário, na Livraria Cultura (Bourbon Shopping Country
(Avenida Túlio de Rose, 80 – lj. 302).

Site do autor

Sorteio do livro nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia e FC

Post no Comuna FC

  1. 17, abril, 2010 em 17:57 | #1

    Você acaba de me vender esse livro. Eu ainda vou esperar encontrá-lo, mas o livro já está vendido.

  2. 18, abril, 2010 em 13:09 | #2

    Olá, Ana Cristina.

    Encontro-me exatamente na elaboração de um texto fantástico longo onde Roma é um dos focos, mas no tempo do imperador Trajano. A evidente necessidade de saber “coisinhas” como “…centurião que acaba de chegar na cidade para ser o novo primus pilus dos pretorianos”, dão alma ao enredo. É uma necessidade básica para um texto minimamente bom, a inserção de detelhes do tipo, e a série Roma da HBO (?) foi uma fonte muito boa, assim com a Wikipédia. Pretendo entrar em contato com o Max para pedir algum auxílio.

    Agradeço esta resenha, e já vou dizendo que o livro dele, necessariamente, já está elencado como uma das minhas fontes.

    Obrigado.

  1. 12, abril, 2010 em 16:25 | #1