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As Histórias e as alternativas: afinal, o ‘se’ pode existir?

(Artigo sobre História Alternativa, um gênero da Literatura Especulativa, como complemento a resenha de “Xochiquetzal”, a ser publicada futuramente)

A impossibilidade na Academia

Qualquer pessoa que já tenha adentrado uma faculdade de História fatalmente já escutou a seguinte frase: “o ‘se’ não existe na historiografia”. O que não é verdade, de forma alguma. Existe toda uma corrente, chamada de ‘contrafactual’, que se embrenha nesse terreno espinhoso: conhecendo o que se desenrolou e estabelecendo um ponto de mudança, como teria sido o mundo?

Não é um caminho fácil. Dentro do campo historiográfico, ele é minoritário, quase uma exceção ou um desvio ensaístico que alguns estudiosos tomam para fazer pequenas derivações de seu trabalho. O grande aprofundamento na contrafactualidade se deu mais no ramo da História Econômica, com a aplicação de formulas econometricas, e na História Militar, com a análise de como diferentes resultados em batalhas poderiam influir na resolução do conflito maior. O primeiro exemplo acadêmico foi Railroads and American Economic Growth: Essays in Econometric History (1964), de Rober Fogel, historiador e economist que ganhou o Nobel de Economia em 1993 por seus estudos na área da cliometria, que é o uso de métodos quantitativos para a análise do processo histórico.

No trabalho de 1964, Fogel fez uma analise comparativa entre os dados reais dos EUA em 1890 e uma projeção alternativa na qual as ferrovias não estariam presentes, limitando os meios de transporte às estradas e rios. O resultado de sua análise, muito controverso, mostrava que as ferrovias tiveram um impacto muito menor na formação econômica americana do que era tido como certo até então. Fogel prosseguiu em seus estudos de cliometria, porém não se aprofundou na história contrafactual.

Dentro da Historiografia, a linha contrafactual segue de maneira errática, baseando-se principalmente em ensaios curtos, geralmente sobre História Militar ou pegando eventos “importantes” como pontos de divergência da História tida como real. Aliás, é uma das grandes críticas feitas a esse campo. Tendo em vista o pouco aprofundamento das pesquisas, as análises contrafactuais, dificilmente estas conseguem compreender uma noção de contexto, não explicando as relações de ruptura e continuidade e alienando os aspectos sócio-culturais do processo histórico. Ela surgiria mais como uma inversão direta da velha História Factual, derrotada pela Nova História francesa, do que um acréscimo a crescente preocupação da Academia com a relação entre o micro e o macro-histórico.

No Brasil, a História Contrafactual se resume basicamente a alguns ensaios publicados em revistas e jornais de grande circulação. E mesmo assim, muitas vezes são escritos em tom mais de ensaio do que de apresentação de hipóteses – como o de José Murilo de Carvalho para a Revista de História da Biblioteca Nacional, sobre a possibilidade da Corte não ter saído de Lisboa em 1808, na Invasão Napoleônica. Raramente, estes estudos são feitos em tom mais sério, como o de Mário Maestri para o Jornal Zero Hora, sobre a Revolução Farroupilha,ou o de Osvaldo Pessoa sobre um método para desenvolver Histórias contrafactuais da Ciência. Da produção internacional, somente a coleção de ensaios dirigida por Robert Cowley foi publicada, com prefácio de Mary Del Priore.

História Alternativa: a narração do ‘não-tempo’

Se no campo acadêmico, o ‘e se…’ é malvisto e criticado, na ficção, as narrativas do que poderia ter sido tem encontrado cada vez mais espaço. Pode-se traçar sua origem longingua à narrativa de Tito Lívio, que se pôs a imaginar como seria uam guerra entre Roma e o império de Alexandre, no livro IX de Ab urbe condita (“Desde a fundação da cidade”).

Porém, durante a Antiguidade e a Idade Média as fronteiras entre ‘real’ e ‘imaginário’ – e por conseqüência entre ‘possível’ e ‘impossível’ nas obras de cunho memorialístico ou histórico eram tênues e quase existentes. É difícil dar um exemplo concreto de especulações nesse sentido, principalmente para a Europa cristã, embora alguns acadêmicos tenham visto ecos de hipóteses de ucronia na refutação feita por Al-Ghazali das idéias de Avicena.

Para quem gosta de estabelecer pontos de origens, provavelmente o primeiro exemplo de História Alternativa como narrativa intencionalmente ficcional e criadora de uma nova realidade a partir de um ponto de divergência foi Tirant le blanch. Escrito dentro da popular tradição dos romances de cavalaria, conta a história de Tirant, guerreiro que dentre muitos feitos, impede que Constantinopla seja tomada pelos turcos em 1453, impedindo a queda do Império Bizantino, do qual se tornou herdeiro. A obra começou a ser escrita por Joanot Martorell em 1460, quando o Ocidente ainda recuperava-se do choque da perda definitiva da Terra Santa para os muçulmanos, e reflete muito a nostalgia e a melancolia do final da Idade Média e do declínio da cavalaria. Com a morte do autor, a obra foi supostamente terminada por Martí Joan de Galba e publicada em 1490, tendo influenciado o ciclo tardio de romances cavaleirescos da península Ibérica nos séculos XVI e XVII.

Um exemplo melhor acabado, que teve recepção popular como História Alternativa – o Tirant era um romance de cavalaria com um ponto de divergência ­– foi Histoire de la Monarchie universelle: Napoléon et la conquête du monde (1812–1832), do francês Louis Geoffroy. Publicado em 1836, com uma edição revisada em 1841, ambas já acessíves no projeto Gallica, o livro conta como Napoleão derrotou a Rússia em 1812, domina a Inglaterra em 1814 e se torna o benevolente governador do mundo, promovendo uma grande evolução tecnológica. O autor inclusive narra a descoberta de um novo planeta, Vulcan.

Mas a lingua na qual as ucronias tornaram-se mais populares foi o inglês. Os estudiosos consideram que o primeiro texto de História Alternativa anglofono foi ‘P.S. Correspondence’, em que um homem era tido por louco por ter acesso a uma realidade diferente, na qual diversas personalidades mortas ainda existiam. Já o primeiro romance foi “Aristopia: A Romance-History of the New World”, publicado em 1895. Diferentemente do conto de Hawtorne, o romance de Castello Holford não trabalhava com realidades paralelas. Sendo fruto da onda de literatura utópica do final do século XIX, tinha uma grande particularidade. Ao contrário das utopias usuais, que colocam o lugar perfeito em um futuro distante ou em um lugar praticamente inatingível, Holford estabeleceu a origem do seu exemplo da sociedade no passado. Na obra, um conjunto de pioneiros encontra uma montanha de ouro puro, no inicio da colonização da América do Norte. Influenciado pela Utopia de Morus, o líder dos colonos funda a Aristopia, um estado forte e benevolente, que prospera e acaba por dominar todo o território ao norte do Rio Grande.

No século XX, a História Alternativa se uniu às histórias de extrapolação científica, principalmente de viagem no tempo e realidades paralelas. Por essa aproximação, muitos ainda consideram a História Alternativa como sendo um ramo da Ficção Científica, apesar de suas origens diversas. É impossível quantificar a produção de História Alternativa no século passado, embora o site Uchronia mantenha uma lista bastante abrangente de romances, contos, ensaios e demais trabalhos de História Alternativa.

Há vários autores e obras relevantes a serem considerados, dentro da literatura de gênero, aquela produzida por autores dedicados a Ficção Especulativa, e mesmo fora dela, por autores mais inseridos no mainstream literário. Pois apesar de seu elemento de extrapolação do real, a História Alternativa atraiu inclusive autores avessos à literatura fantástica.

Vários autores de Ficção Científica e Fantasia escreveram narrativas em que o processo histórico alterou-se em algum momento, apresentando assim uma realidade alternativa a nossa. Alguns fizeram de forma independente, ou seja, contaram a sua trama sem relacioná-la com o vivido na Linha Temporal Oficial. É o caso de O homem do castelo alto de P. K. Dick: neste interessante jogo de metalinguagem, o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial e um autor escreve um livro de História Alternativa em que os aliados venceram.  Harry Turtledove, um dos autores mais prolíficos dentro do gênero, escreveu várias histórias dessa forma, como O dilema de Shakespeare, em que a Armada Espanhola mostrou-se realmente invencível e invadiu a Inglaterra, colocando William Shakespeare a serviço de Felipe II.

Turtledove também se aventurou em outro ramo da História Alternativa, aquele em que as várias linhas temporais se comunicam através de uma agência de viajantes ou patrulheiros. Foi essa premissa da sua série Crosstime Traffic, série para ‘jovens adultos’ sobre uma agência de comércio e turismo envolvendo viagens no tempo. E é também o ponto de partida para a série de histórias da Patrulha do Tempo de Poul Anderson, na qual por vezes a História é alterada como conseqüência das viagens no tempo.

Autores não identificados com a literatura especulativa também contribuíram para o gênero. É o caso de Complô contra a América, do elogiado Phillip Roth, em que Charles Lindbergh torna-se presidente dos EUA em 1940, fazendo crescer o anti-semitismo no país.  O controverso autor de Lolita, Vladimir Nabokov, também se aventurou a imaginar uma realidade diferente, a partir de um ponto de convergência em Ada ou Ardor: Crônica de uma Família, tido como o seu último “grande romance”. A trama se passa em uma América do Norte que foi parcialmente colonizada pela Rússia czarista e tem várias semelhanças com O homem do Castelo Alto, principalmente por jogar com as realidades e alternativas.

O movimento steampunk em várias obras se aproxima da História Alternativa, como no livro seminal do gênero The difference engine de Bruce Sterling e William Gibson. Porém, de modo geral podemos dizer que nesse movimento a estética do vapor é mais importante do que estabelecer as mudanças a partir de um ponto de convergência em relação a nossa Linha Temporal.

História Alternativa no Brasil

Gerson Lodi-Ribeiro, um dos maiores especialistas no assunto, fez em 1998 uma lista completa das obras de História Alternativa disponíveis em língua portuguesa – incluindo aí traduções. A listagem desanima pelo tamanho, já que ocupa apenas 3 páginas do Ensaios de História Alternativa.  E se constitui majoritariamente de autores anglofonos: apenas sete brasileiros (entre eles o próprio Gerson e um seu pseudônimo) constam, com apenas um romance, A casca da serpente, de J.J. Veiga. No livro, Antônio Conselheiro não morre na queda de Canudos e prossegue em sua missão de profeta.

Porém, o grosso da produção é de Gerson, considerado o grande mestre do gênero no país, já tendo sido indicado a um dos principais prêmios dedicados à literatura de História Alternativa.

Felizmente, a listagem, nestes últimos doze anos, tornou-se bastante defasada. A produção nacional intensificou-se, com o apoio do próprio Gerson, que organizou uma coletânea dedicada a repensar a História brasileira dentro do ponto de vista da literatura especulativa, Phantastica Brasiliana. Outros nomes foram criando força dentro do gênero, como Roberval Barcellos e Ataíde Tartari, e Gerson teve sua coletânea Outros Brasis finalmente lançada no país. Escritores de relevância dentro do fandom vem arriscando passos nesse sentido, como Carlos Orsi, Miguel Carqueija (ambos com obras lançadas pela editora independente Scarium em 2009) e Roberto Causo, cujo romance de História Alternativa Selva Brasil foi lançado no primeiro semestre de 2010. Surgiu mesmo uma antologia de contos, do autor português Bruno Fachoda, publicada pelo sistema on demand.

A tradução se intensificou, trazendo obras mais recentes como o já citado livro Complô contra a América e Associação Judaica de Policia, de Michel Chabon, e clássicos do gênero como O homem do castelo alto e A máquina diferencial (a ser lançada no segundo semestre de 2010).

Alguns fatores podem ter contribuido para isso: a maior divulgação da especulação histórica na mídia, por meio de ensaios ou mesmo documentários televisivos, a presença maior de títulos – que geram um ciclo de interesse continuo, a mudança nos currículos escolares na área de História, que se tornaram mais dinâmicos e interessantes.

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  1. 28, abril, 2010 em 23:55 | #1

    Bom artigo. Na revista Superinteressante e na Mundo Estranho às vezes aprecem artigos de História ContraFactual. Me lembro de um, especificamente, que era de “e se” os o Sul tivesse ganhoa Guerra da Secessão? Também tem um dos universo da DC pré Crise das infinitas Terras, onde os EUA perderam a Guerra da Independência e os Nazistas ganharam a segunda Guerra, porém enfrentavam uma guerra de guerrilha nos anos 80.

  2. 28, abril, 2010 em 23:56 | #2

    Bom artigo. Na revista Superinteressante e na Mundo Estranho às vezes aprecem artigos de História ContraFactual. Me lembro de um, especificamente, que era de e se os o Sul tivesse ganhoa Guerra da Secessão? Também tem um dos universo da DC pré Crise das infinitas Terras, onde os EUA perderam a Guerra da Independência e os Nazistas ganharam a segunda Guerra, porém enfrentavam uma guerra de guerrilha nos anos 80.

  3. 3, julho, 2010 em 03:11 | #3

    Cada dia que passa me interesso mais pela história alternativa. Estou me graduando no curso de História, e como estudante já ouvi muito ” o e se não existe na História “. Sobre o termo “História Contrafactual” escutei muito pouco, em nichos específicos que lidam muito com literatura, uma pena, ao mesmo tempo em que a mente abre no curso, fica um tiquinho bitolada se não sai por aí pesquisando sempre.
    Gostei muito do seu artigo! Estou acompanhando todas as atualizações que envolvam história alternativa ;D

  1. 28, abril, 2010 em 23:02 | #1