Arquivo

Arquivo de abril, 2010

As Histórias e as alternativas: afinal, o ‘se’ pode existir?

28, abril, 2010 3 comentários

(Artigo sobre História Alternativa, um gênero da Literatura Especulativa, como complemento a resenha de “Xochiquetzal”, a ser publicada futuramente)

A impossibilidade na Academia

Qualquer pessoa que já tenha adentrado uma faculdade de História fatalmente já escutou a seguinte frase: “o ‘se’ não existe na historiografia”. O que não é verdade, de forma alguma. Existe toda uma corrente, chamada de ‘contrafactual’, que se embrenha nesse terreno espinhoso: conhecendo o que se desenrolou e estabelecendo um ponto de mudança, como teria sido o mundo?

Não é um caminho fácil. Dentro do campo historiográfico, ele é minoritário, quase uma exceção ou um desvio ensaístico que alguns estudiosos tomam para fazer pequenas derivações de seu trabalho. O grande aprofundamento na contrafactualidade se deu mais no ramo da História Econômica, com a aplicação de formulas econometricas, e na História Militar, com a análise de como diferentes resultados em batalhas poderiam influir na resolução do conflito maior. O primeiro exemplo acadêmico foi Railroads and American Economic Growth: Essays in Econometric History (1964), de Rober Fogel, historiador e economist que ganhou o Nobel de Economia em 1993 por seus estudos na área da cliometria, que é o uso de métodos quantitativos para a análise do processo histórico.

No trabalho de 1964, Fogel fez uma analise comparativa entre os dados reais dos EUA em 1890 e uma projeção alternativa na qual as ferrovias não estariam presentes, limitando os meios de transporte às estradas e rios. O resultado de sua análise, muito controverso, mostrava que as ferrovias tiveram um impacto muito menor na formação econômica americana do que era tido como certo até então. Fogel prosseguiu em seus estudos de cliometria, porém não se aprofundou na história contrafactual.

Dentro da Historiografia, a linha contrafactual segue de maneira errática, baseando-se principalmente em ensaios curtos, geralmente sobre História Militar ou pegando eventos “importantes” como pontos de divergência da História tida como real. Aliás, é uma das grandes críticas feitas a esse campo. Tendo em vista o pouco aprofundamento das pesquisas, as análises contrafactuais, dificilmente estas conseguem compreender uma noção de contexto, não explicando as relações de ruptura e continuidade e alienando os aspectos sócio-culturais do processo histórico. Ela surgiria mais como uma inversão direta da velha História Factual, derrotada pela Nova História francesa, do que um acréscimo a crescente preocupação da Academia com a relação entre o micro e o macro-histórico.

No Brasil, a História Contrafactual se resume basicamente a alguns ensaios publicados em revistas e jornais de grande circulação. E mesmo assim, muitas vezes são escritos em tom mais de ensaio do que de apresentação de hipóteses – como o de José Murilo de Carvalho para a Revista de História da Biblioteca Nacional, sobre a possibilidade da Corte não ter saído de Lisboa em 1808, na Invasão Napoleônica. Raramente, estes estudos são feitos em tom mais sério, como o de Mário Maestri para o Jornal Zero Hora, sobre a Revolução Farroupilha,ou o de Osvaldo Pessoa sobre um método para desenvolver Histórias contrafactuais da Ciência. Da produção internacional, somente a coleção de ensaios dirigida por Robert Cowley foi publicada, com prefácio de Mary Del Priore.

História Alternativa: a narração do ‘não-tempo’

Se no campo acadêmico, o ‘e se…’ é malvisto e criticado, na ficção, as narrativas do que poderia ter sido tem encontrado cada vez mais espaço. Pode-se traçar sua origem longingua à narrativa de Tito Lívio, que se pôs a imaginar como seria uam guerra entre Roma e o império de Alexandre, no livro IX de Ab urbe condita (“Desde a fundação da cidade”).

Porém, durante a Antiguidade e a Idade Média as fronteiras entre ‘real’ e ‘imaginário’ – e por conseqüência entre ‘possível’ e ‘impossível’ nas obras de cunho memorialístico ou histórico eram tênues e quase existentes. É difícil dar um exemplo concreto de especulações nesse sentido, principalmente para a Europa cristã, embora alguns acadêmicos tenham visto ecos de hipóteses de ucronia na refutação feita por Al-Ghazali das idéias de Avicena.

Para quem gosta de estabelecer pontos de origens, provavelmente o primeiro exemplo de História Alternativa como narrativa intencionalmente ficcional e criadora de uma nova realidade a partir de um ponto de divergência foi Tirant le blanch. Escrito dentro da popular tradição dos romances de cavalaria, conta a história de Tirant, guerreiro que dentre muitos feitos, impede que Constantinopla seja tomada pelos turcos em 1453, impedindo a queda do Império Bizantino, do qual se tornou herdeiro. A obra começou a ser escrita por Joanot Martorell em 1460, quando o Ocidente ainda recuperava-se do choque da perda definitiva da Terra Santa para os muçulmanos, e reflete muito a nostalgia e a melancolia do final da Idade Média e do declínio da cavalaria. Com a morte do autor, a obra foi supostamente terminada por Martí Joan de Galba e publicada em 1490, tendo influenciado o ciclo tardio de romances cavaleirescos da península Ibérica nos séculos XVI e XVII.

Um exemplo melhor acabado, que teve recepção popular como História Alternativa – o Tirant era um romance de cavalaria com um ponto de divergência ­– foi Histoire de la Monarchie universelle: Napoléon et la conquête du monde (1812–1832), do francês Louis Geoffroy. Publicado em 1836, com uma edição revisada em 1841, ambas já acessíves no projeto Gallica, o livro conta como Napoleão derrotou a Rússia em 1812, domina a Inglaterra em 1814 e se torna o benevolente governador do mundo, promovendo uma grande evolução tecnológica. O autor inclusive narra a descoberta de um novo planeta, Vulcan.

Mas a lingua na qual as ucronias tornaram-se mais populares foi o inglês. Os estudiosos consideram que o primeiro texto de História Alternativa anglofono foi ‘P.S. Correspondence’, em que um homem era tido por louco por ter acesso a uma realidade diferente, na qual diversas personalidades mortas ainda existiam. Já o primeiro romance foi “Aristopia: A Romance-History of the New World”, publicado em 1895. Diferentemente do conto de Hawtorne, o romance de Castello Holford não trabalhava com realidades paralelas. Sendo fruto da onda de literatura utópica do final do século XIX, tinha uma grande particularidade. Ao contrário das utopias usuais, que colocam o lugar perfeito em um futuro distante ou em um lugar praticamente inatingível, Holford estabeleceu a origem do seu exemplo da sociedade no passado. Na obra, um conjunto de pioneiros encontra uma montanha de ouro puro, no inicio da colonização da América do Norte. Influenciado pela Utopia de Morus, o líder dos colonos funda a Aristopia, um estado forte e benevolente, que prospera e acaba por dominar todo o território ao norte do Rio Grande.

No século XX, a História Alternativa se uniu às histórias de extrapolação científica, principalmente de viagem no tempo e realidades paralelas. Por essa aproximação, muitos ainda consideram a História Alternativa como sendo um ramo da Ficção Científica, apesar de suas origens diversas. É impossível quantificar a produção de História Alternativa no século passado, embora o site Uchronia mantenha uma lista bastante abrangente de romances, contos, ensaios e demais trabalhos de História Alternativa.

Há vários autores e obras relevantes a serem considerados, dentro da literatura de gênero, aquela produzida por autores dedicados a Ficção Especulativa, e mesmo fora dela, por autores mais inseridos no mainstream literário. Pois apesar de seu elemento de extrapolação do real, a História Alternativa atraiu inclusive autores avessos à literatura fantástica.

Vários autores de Ficção Científica e Fantasia escreveram narrativas em que o processo histórico alterou-se em algum momento, apresentando assim uma realidade alternativa a nossa. Alguns fizeram de forma independente, ou seja, contaram a sua trama sem relacioná-la com o vivido na Linha Temporal Oficial. É o caso de O homem do castelo alto de P. K. Dick: neste interessante jogo de metalinguagem, o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial e um autor escreve um livro de História Alternativa em que os aliados venceram.  Harry Turtledove, um dos autores mais prolíficos dentro do gênero, escreveu várias histórias dessa forma, como O dilema de Shakespeare, em que a Armada Espanhola mostrou-se realmente invencível e invadiu a Inglaterra, colocando William Shakespeare a serviço de Felipe II.

Turtledove também se aventurou em outro ramo da História Alternativa, aquele em que as várias linhas temporais se comunicam através de uma agência de viajantes ou patrulheiros. Foi essa premissa da sua série Crosstime Traffic, série para ‘jovens adultos’ sobre uma agência de comércio e turismo envolvendo viagens no tempo. E é também o ponto de partida para a série de histórias da Patrulha do Tempo de Poul Anderson, na qual por vezes a História é alterada como conseqüência das viagens no tempo.

Autores não identificados com a literatura especulativa também contribuíram para o gênero. É o caso de Complô contra a América, do elogiado Phillip Roth, em que Charles Lindbergh torna-se presidente dos EUA em 1940, fazendo crescer o anti-semitismo no país.  O controverso autor de Lolita, Vladimir Nabokov, também se aventurou a imaginar uma realidade diferente, a partir de um ponto de convergência em Ada ou Ardor: Crônica de uma Família, tido como o seu último “grande romance”. A trama se passa em uma América do Norte que foi parcialmente colonizada pela Rússia czarista e tem várias semelhanças com O homem do Castelo Alto, principalmente por jogar com as realidades e alternativas.

O movimento steampunk em várias obras se aproxima da História Alternativa, como no livro seminal do gênero The difference engine de Bruce Sterling e William Gibson. Porém, de modo geral podemos dizer que nesse movimento a estética do vapor é mais importante do que estabelecer as mudanças a partir de um ponto de convergência em relação a nossa Linha Temporal.

História Alternativa no Brasil

Gerson Lodi-Ribeiro, um dos maiores especialistas no assunto, fez em 1998 uma lista completa das obras de História Alternativa disponíveis em língua portuguesa – incluindo aí traduções. A listagem desanima pelo tamanho, já que ocupa apenas 3 páginas do Ensaios de História Alternativa.  E se constitui majoritariamente de autores anglofonos: apenas sete brasileiros (entre eles o próprio Gerson e um seu pseudônimo) constam, com apenas um romance, A casca da serpente, de J.J. Veiga. No livro, Antônio Conselheiro não morre na queda de Canudos e prossegue em sua missão de profeta.

Porém, o grosso da produção é de Gerson, considerado o grande mestre do gênero no país, já tendo sido indicado a um dos principais prêmios dedicados à literatura de História Alternativa.

Felizmente, a listagem, nestes últimos doze anos, tornou-se bastante defasada. A produção nacional intensificou-se, com o apoio do próprio Gerson, que organizou uma coletânea dedicada a repensar a História brasileira dentro do ponto de vista da literatura especulativa, Phantastica Brasiliana. Outros nomes foram criando força dentro do gênero, como Roberval Barcellos e Ataíde Tartari, e Gerson teve sua coletânea Outros Brasis finalmente lançada no país. Escritores de relevância dentro do fandom vem arriscando passos nesse sentido, como Carlos Orsi, Miguel Carqueija (ambos com obras lançadas pela editora independente Scarium em 2009) e Roberto Causo, cujo romance de História Alternativa Selva Brasil foi lançado no primeiro semestre de 2010. Surgiu mesmo uma antologia de contos, do autor português Bruno Fachoda, publicada pelo sistema on demand.

A tradução se intensificou, trazendo obras mais recentes como o já citado livro Complô contra a América e Associação Judaica de Policia, de Michel Chabon, e clássicos do gênero como O homem do castelo alto e A máquina diferencial (a ser lançada no segundo semestre de 2010).

Alguns fatores podem ter contribuido para isso: a maior divulgação da especulação histórica na mídia, por meio de ensaios ou mesmo documentários televisivos, a presença maior de títulos – que geram um ciclo de interesse continuo, a mudança nos currículos escolares na área de História, que se tornaram mais dinâmicos e interessantes.

Categories: Artigos Tags:

Weird Evangelisti – por Matheus Quinan

24, abril, 2010 Sem comentários

Resenhista convidado diretamente do blog Caos Neural

Black Flag

Utilizando uma narrativa violenta e doentia, o italiano Valerio Evangelisti, autor da trilogia “Magus” e de “O Inquisidor” e “Correntes da Inquisição”, constrói, a partir de três histórias alternadas, um livro inovador e marcante.

O primeiro capítulo é o início de uma história, em um tempo mais próximo do presente, onde uma tragédia no Panamá, condicionada pelo ataque de estadunidenses, acontece. Há a presença de um grupo de prisioneiros americanos portadores da “porfiria”, doença responsável por algumas lendas sobre lobisomens. Tal doença, na verdade, é um dos focos principais do
livro. Esta história só tem continuidade no último capítulo.

Passada na Guerra da Secessão, a história principal, de capítulos maiores, conta a trajetória de Pantera, um pistoleiro mexicano, que também é um “palero”, uma espécie de xamã. O feiticeiro é capturado por um bando de mercenários liderado por Jesse James, lendário cowboy de gatilho rápido. Acaba sendo tratado não como prisioneiro, mas como um membro do bando. Em meio ao caos de assaltos a fazendas e do escalpelamento de inimigos, Pantera conhece Koger, um sujeito possuidor de uma doença que o faz parecer um lobisomem, Molly, uma prostituta irlandesa que se apaixona por ele, Lobo Branco, um índio velho portador de um cachimbo capaz de proporcionar experiências psicodélicas, Bellegarrigue, um médico francês anarquista que pretende usar o bando para conseguir seu objetivo, e vários outros personagens insanos e absurdos.

A história que se mescla com a de Pantera se passa em um futuro distante, onde a terra, sobretudo “Paradice”, a cidade em que vive Lilith, a  protagonista, é habitada somente por loucos. A esta altura, a tortura e o sofrimento são encarados como formas de afeto, a morte é vista com indiferença e o estupro é corriqueiro. Todos são assim, sem exceção.

Considerado por alguns a obra lançada no Brasil mais próxima do New Weird, Black Flag quebra o conceito que costumamos ter sobre fantasia e ficção científica, reinventando e fundindo vários estilos de forma bastante efetiva.

Orgulho e preconceito contra zumbis

20, abril, 2010 4 comentários

Um dos maiores chavões que eu conheço – olha que são muitos – é o velho ‘a escola mata o gosto pela leitura ao obrigar os alunos a ler os clássicos’. Apesar de acreditar que muito disso se deve mais a obrigatoriedade do que aos clássicos em si, não podemos desconsiderar que em tempos de ‘Resident Evil’ e ‘God of War’, ‘O morro dos ventos uivantes’ e ‘A Odisseia’ saem perdendo no quesito atratividade.

Afinal, entre ler sobre monstros e matá-los para se tornar um deus qualquer pessoa com menos de 30 anos vai escolher o caminho mais divertido e sangrento. Oras, por vezes até eu mesma escolho. Então, fica difícil alguém conseguir manter a atenção nos intermináveis saraus e reuniões sociais de ‘A moreninha’ e ‘Senhora’ em tempos de ‘The Sims’, twitter e MSN.

E até onde posso perceber, o problema é universal. Ou melhor dizendo, mundial. As crianças vulcanas devem adorar ler os ensinamentos de Surak.

Mas aqui na 3ª pedra a partir do Sol, o negócio é bem mais complicado.

Até que um dia, lá fora – claro, o editor Jason Rekulak da Quirk Classics achou o ‘ovo de Colombo’ dessa história. Foi inspirado pelo exemplo de um livro de auto-ajuda para pessoas… ah, fofas em excesso assim como eu, que misturava os ensinamentos do Sun Tzu em ‘A arte da guerra’ com os conselhos que todo o fofinho já escutou de seu endócrino ou nutricionista que mudou os rumos da sua casa editorial.

Resolveu pegar clássicos da literatura que já tivessem caído em domínio publico e fazer uma mistura com elementos dos livros que a rapaziada curte: vampiros, fantasmas, lobisomens, andróides, zumbis, monstros marinhos, ninjas… Contatou o escritor pouco conhecido Seth Grahame-Smith, dizendo que tinha uma ideia, um título e só. O autor disse depois que este título ‘era a coisa mais genial que já tinha ouvido’: ‘Pride and Prejudice and Zombies‘.

Cá entre nós, se não é a coisa mais genial que EU já ouvi, está no top 100 com certeza.

O livro obviamente incomodou muitos acadêmicos. Mas como todos nós sabemos, o público em geral não dá muita bola para ranzinzices mofadas e adorou a ideia, fazendo do mashup do livro de Jane Austen um dos grande sucessos editoriais do ano passado. A Intrinseca, mostrando mais uma vez que é antenada com o que cheira a sucesso (é a editora das séries ‘Crepúsculo’ e ‘Percy Jackson’ no Brasil), lançou a versão brasileira do livro no começo de 2010.

Manteve-se fiel ao espírito da edição original: a capa é a mesma, o título é a tradução literal, as ilustrações – uma boa emulação dos originais da época de Austen – também estão lá. Inclusive a ‘ficha de leitura’, que tira um grande sarro das perguntas dos livros paradidáticos, aparece no final.

A trama principal é a que foi escrita por Jane Austen em 1813, uma crônica ácida e divertida dos costumes do inicio do século XIX vistos por uma mulher. As irmãs Bennet estão na idade de casar e essa se torna a principal preocupação de sua mãe, uma senhora praticamente insuportável. A vida das cinco moças gira em torno dessa obsessão por casamento, inclusive Elizabeth, a segunda mais velha e a mais ousada, que é a protagonista da história.

Eu disse que a vida delas gira em torno de casamentos? Bem, isso na versão original.

No livro da Quirk Classics, tem um probleminha distraindo as mentes das jovens desse objetivo. Uma estranha praga assola a Inglaterra, fazendo com que os mortos levantem dos túmulos atrás de carne humana. Como nos bons filmes e livros do gênero, uma mordida e o pobre infeliz também irá contrair a moléstia. E é por isso que o pai, o Sr. Bennet, tem outros pensamentos em relação ao futuro de suas filhas. As irmãs são treinadas exaustivamente em artes marciais para poderem se defender e ajudar na defesa de seu país contra as hordas de mortos-vivos.

Aí está a receita. O livro mantém o humor ácido e inteligente de Austen, inclusive com os diálogos marcantes entre Elizabeth Bennet e o arrogante Mr. Darcy, Lady Catherine continua sendo preconceituosa, a pobre Charlotte ainda tem o seu destino trágico… porém tudo fica mais divertido com zumbis. A cena do jantar, logo no começo do livro, perde seu ar de sarau e transforma-se em uma batalha campal em um dos muitos momentos divertidos da história.

O autor não perde muito tempo explicando o que aconteceu ou como os zumbis apareceram. Mal e mal nos deixa saber que estão procurando uma cura. Nos 15% do livro que lhe couberam – já que manteve 85% do texto original – ele se preocupa muito mais em inserir cenas de ação, como a disputa de Elizabeth com os ninjas de Lady Catherine, ela mesma uma eximia lutadora que teve tempos de glória no combate aos atingidos pela praga.

Porém, isso não faz muita diferença. O toque de mestre ali foi saber onde inserir na narrativa os momentos de quebra – como leitora dos dois livros, com e sem zumbis, deu para perceber que ele escolheu bem. Sempre que a trama de Jane Austen podia afastar jovens leitores, há zumbis, ninjas e lutas para trazê-los de volta.

Claro que aqueles que levam a literatura a sério demais bradam que é um sacrilégio, uma afronta, um desrespeito, antiético e até criminoso que o autor ganhe dinheiro dessa forma. Nunca vi, no entanto, esses mesmo críticos refletiram que as editoras ganham muito dinheiro reeditando clássicos em domínio público para servirem como paradidáticos. Qualquer pessoa que entenda o mínimo de legislação autoral sabe que a partir do momento em que a obra cai em domínio público, ela é de livre utilização, por qualquer pessoa, incluindo autores. E só seria antiético se o nome de Jane Austen fosse deixado de lado – o que não acontece, muito pelo contrário.

E é curioso que digam que é um desrespeito e uma afronta. Jane Austen enfrentou esse mesmo tipo de comentário por ser uma mulher que se atrevia a fazer literatura. Poucas na época ousavam, muito menos o sucesso e o reconhecimento da inglesa.

Pode ser que artisticamente, ‘Orgulho e Preconceito e Zumbis’ não revolucione a literatura. Porém, já trouxe uma pequena revolução no mercado. A Quirck Classics já lançou ‘Sense and sensibility and sea monsters’ e agendou o lançamento de ‘Android Karenina’ para outubro deste ano. Grahame-Smith é o autor de ‘Abraham Lincoln: vampire slayer’. Outros autores e editores começam a apostar no filão: Amanda Grange lançou ‘Mr. Darcy, Vampyre’ pela SourceBooks.

E claro que isso não ia parar nos livros.  ‘Pride and prejudice and Zombies‘ vai virar filme e graphic novel. Uma produtora cinematográfica inglesa já anunciou que pretende filmar uma invasão alienígena à cidade fictícia de Meryton, onde se passa o livro de Jane Austen, intitulada Pride and Predator’. Um jogo para Ipod e Iphone será lançado em breve.

E mesmo no Brasil, essa mania pode pegar. O assunto já apareceu na Veja e na Época, foi capa do suplemento Megazine de 20/04/2010, com brasileiros dando exemplos de obras nacionais ‘remixadas’, a Intrinseca já anunciou o lançamento de ‘Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos’ e ‘Abraham Lincoln: matador de vampiros’ para 2010…

E a Desiderata anuciou que no final desse ano irá lançar “Memórias Pós-túmulo de Brás Cubas’ no final do ano. O autor ainda não foi anunciado. Mas já prevejo que ele irá apanhar bastante. Da crítica. O público, porém, tem muita chance de gostar do que vai ler!

Chamada no ‘Comunidade FC

Servir no Céu ou reinar no Inferno?

12, abril, 2010 2 comentários

“A vida de Dolens ardia entre dois fogos: o lume do sonho e as faíscas do pesadelo.”

O centésimo em Roma - capa

Vocês sabem o que países tão diferentes entre si como Romênia, Israel, Portugal e Inglaterra tem em comum? Um dia, muitos anos atrás, todos – ou pelos menos os territórios que pertencem a eles hoje – fizeram parte da mesma unidade política, o Império Romano.

Nossas instituições, nossa forma de governo, nossa ‘religião oficial’… boa parte da origem da cultura do Ocidente vem de Roma e seus dominios. Urbi et orbi. Mesmo a língua em que escrevo esta resenha é romana – ou melhor, ‘romance’.

A cidade na Península Itálica virou nosso eterno Fantasma do Natal Passado, ponto de comparação quase universal. Por exemplo a própria ideia de ‘Império’, quimera perseguida na Idade Média por Carlos Magno e seus descendentes e renascida por várias vezes em palavras e conceitos. Kaiser, czar… palavras que denominam o governante mais poderoso vem de César, o título imperial romano.

(Não vou me alongar aqui nas questões históricas dos impérios coloniais e os do século XIX, mas deixo aqui a recomendação: leiam Eric Hobsbawn, ‘A era dos impérios’)

Hoje, a comparação sempre constante é com a influência política e econômica dos Estados Unidos – o chamado ‘império americano’. Inclusive o emblemático 11 de setembro de 2001 foi comparado à queda de Roma, invadida pelos ‘bárbaros’.

A Roma histórica caiu fisicamente, deixando o seu legado institucional a cargo da religião que a príncipio foi sua vítima, depois um misto de algoz e herdeiro, o cristianismo. A Roma ‘americana’, invadida por ‘godos’ em nome de Alá, permaneceu inteira, se não intacta. No entanto, a invasão deixou impressões que não se apagaram.

Foi essa impressão um dos motivos que levaram o escritor e roteirista Max Mallmann a passar seu quinto romance em Roma – o Império e a cidade. A influência latina no mundo ocidental e a paixão do autor pelos cenários urbanos (três de seus livros anteriores passam-se em cenários urbanos, mesmo que dentro de uma base espacial) também influiram, além de motivos inconscientes.

Roma é uma constante na literatura. De Gore Vidal a Marion Zimmer Bradley, vários foram os autores que se aventuraram pelos caminhos que levavam a capital do mundo. E se formos acreditar nos ditos populares, todos levam lá. Então, todos os gêneros já passearam pelas estreitas ruas entre as sete colinas: Ficção Científica, Fantasia, História Alternativa, Romance, Terror e Suspense. Este último tornou-se tão popular que gerou um subgênero, o dos ‘detetives de toga‘.

E foi por essa trilha que o gaucho seguiu em ‘O centésimo em Roma’, seu terceiro livro pela editora Rocco, lançado neste mês de abril. Ao acompanharmos a vida e as ambições de Publius Desiderius Dolens, centurião que acaba de chegar na cidade para ser o novo primus pilus dos pretorianos, somos envolvidos na trama do assassinato de um senador. A contragosto, Dolens aceita fazer a investigação, ao mesmo tempo em que tenta escalar a complicada hierarquia social romana para chegar ao apice possivel a ele, a ordem equestre.

E nisso, conhecemos a Roma com sua cara múltipla, de gladiadores, judeus, gregos, cristãos, padeiros, prostitutas, sacerdotes falsos e verdadeiros. Inclusive somos apresentados a um legítimo lusitano, dono de uma taverna.

A história desse ambicioso romano, que saiu de um dos bairros mais miseráveis da cidade, é contada em duas linhas narrativas. Pois a base de ‘O centésimo em Roma’ é o livro ‘Vita Dolentis’, de Quintus Trebellius Nepos, que foi comandado pelo centurião. Entremeados com trechos da narrativa contemporânea, testemunhada por Nepos, há trechos em que acompanhamos de um outro ponto de vista, nos quais é a voz do autor brasileiro que fala.

É impossível não se identificar com o protagonista, complexo e paradoxal, dividido entre o dever e a ambição, o amor pela mulher germana e a pátria romana. Dolens é irônico e cruelmente sincero ao refletir sobre seu próprio valor, muito mais do que Nepos – a ironia que é quase marca registrada de Max Mallmann.

A extensa pesquisa histórica traz profundidade ao cenário, apresentado de forma magistralmente suave no decorrer do livro. Roma nos parece tão viva quanto Nova Iorque ou o Rio de Janeiro, e os personagens, apesar de não parecerem romanos anacrônicos, nos dão a sensação de serem conhecidos. Ambientado no ‘Ano dos Quatro Imperadores’, em que a instabilidade ameaçava a continuidade do império,  o livro trata da política romana de uma forma que a torna estranhamente familiar para nós, brasileiros.

Sem contar, claro, os deliciosos pensamentos céticos/heréticos de Dolens tentando entender os cristãos, aquelas figuras estranhas que começam a aparecer em Roma.

No final, o autor acrescentou um posfacio, onde explica o processo de confecção e pesquisa do romance, inclusive listando algumas das obras mais importantes consultadas (por aquelas engraçadas coincidências, uma é o dicionário de latim de Ernesto de Faria, pai de minha chefe na Biblioteca Nacional. Curiosamente, não fui que o indiquei ao autor), as referências implicitas e explicitas, além de lista de personagens.

Para quem gosta de mistério ou de Roma – ou de ambos – uma leitura insuperável.

***

Agora, para você, meu colega escritor iniciante:

‘O centésimo em Roma’ é leitura importantíssima, por alguns pontos:

– Pela meticulosidade e precisão da pesquisa envolvida

– Pela mostra de como trabalhar com referências

– Pela boa construção de personagens e tramas

– E por mostrar que um brasileiro pode escrever sobre Roma com perfeição.

Atenção: A resenha foi escrita com base numa proof-reading. Quaisquer incorreções serão corrigidas com o livro final em mãos

Autor: Max Mallmann

ISBN: 978-85-3252-507-9

Gênero: Histórico

Formato: 16cm x 23cm

Páginas: 424

Capa: Christiano Menezes (estúdio Retina78)

Preço de capa: R$ 49,00

Lançamentos:

Rio de Janeiro- quinta-feira, dia 15 de abril, na Livraria da
Travessa de Ipanema
(Rua Visconde de Pirajá, 572), a partir das 19:30.

Porto Alegre – 6 de maio, também uma quinta-feira, no mesmo
horário, na Livraria Cultura (Bourbon Shopping Country
(Avenida Túlio de Rose, 80 – lj. 302).

Site do autor

Sorteio do livro nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia e FC

Post no Comuna FC