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O Jogo de Tronos

“Quando você entra no Jogo de Tronos, você ganha ou morre. Não há um meio termo.”

Conflitos em livros de Fantasia são resolvidos como, pergunto a vocês.

E quase aposto que em poucos minutos, o que virá a sua mente são as batalhas de Helm ou os ents destruindo Isengard. Ou criancinhas sendo perseguidas por pessoas muito más que as querem eliminar, resolvendo assim qualquer problema.

Levando em consideração que grande parte do imaginário da Fantasia – principalmente no que diz respeito à High Fantasy e a Sword and Sorcery – nada podia ser mais irreal.

Guerras custavam – e ainda custam, vide o orçamento do Sr. Nobel da Paz – caro, em termos materiais e sociais. Elas tiram o camponês do campo para fazer parte da infantaria e o nobre do castelo para constituir a cavalaria. Os peões que morrem desfalcam a cadeia produtiva, principalmente levando em consideração que são tempos de alta mortalidade infantil. E a morte de nobres em batalha podem destruir domínios e nações – que o digam Portugal e seu rei-cruzado D. Sebastião.

Portanto, meninos e meninas, a guerra entre dois poderes conflitantes, além de último esforço, era principalmente apenas mais uma parte do grande jogo do Poder. Havia muitas outras estratégias postas em prática pelos participantes do jogo de tronos: casamentos, alianças diplomáticas, troca de favores, subornos, corrupção, traições, assassinatos.

A palavra que era dada hoje podia não valer mais nada amanhã. O Imperador Carlos V libertou Francisco I da França mediante a promessa de ter de volta a Borgonha que pertenceu a seu bisavô. Morreu sem rever Dijon. O bispo que sagrava o rei muitas vezes conspirava para tirá-lo do trono.

Mas e daí, Ana? É Fantasia, poxa, tem magos, dragões, elfos e o caramba-a-quatro. Quem liga pro que é real?

Bem, eu ligo para o que é verossimel. Ou seja, tudo bem se explodirem bolas de fogo em cima de um dragão negro cavalgado por uma mulher de cabelos verdes e seios pintados de azul- desde que aquilo não me tire do livro. Explicando: se a toda hora eu leio algo que eu precise pensar ‘mas é só fantasia’, acaba qualquer chance de imersão naquele universo. E isso é um dos meus problemas com ‘Senhor dos Anéis’ e ‘Harry Potter’ (MEUS problemas, ok? Os livros não são ruins e nem eu odeio Tolkien/J. K. Rowling. Mas tem coisas nas obras de ambos que me incomodam – e eu não os colocaria no meu top dez de autores de Fantasia). Oras, é algo que me incomoda em ‘As Brumas de Avalon’ e eu sou fã de carteirinha da Marion Zimmer Bradley. (A saber: o detalhe irritante nas ‘Brumas’ é a estranha religião celta com apenas dois deuses, uma wicca avant la lettre).

Além disso, a história européia pré-Revolução Francesa tem sido a grande inspiração da literatura de Fantasia . Não dá para ignorar a ‘realidade’ histórica na construção da obra ficcional. E principalmente não dá para esquecer a própria realidade ficcional. Guerras não são simplesmente magos e bolas de fogo e dragões. Mesmo em livros de Fantasia.

E o que torna a série ‘A song of Ice and Fire’ diferente, um passo a frente da maioria dos épicos fantásticos que você já leu?

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A crueza de sua verossimilhança.

Ao enredar o leitor no conflito pelo poder em Westeros, o continente em que se desenvolve a maior parte da saga, George R. R. Martin não cai na armadilha de muitos outros. Não há romantismo ou ideais que durem nessa disputa. O sexo é duro e bastardos rangem os dentes ao serem humilhados. Batalhas não são descritas como épicos combates entre semi-deuses, mas do jeito sujo e rasteiro como aconteciam. Um garotinho que cai do telhado não se salva miraculosamente.

Martin chega a ser malvado com o leitor, matando personagens carismáticos e importantes sem dó, nem piedade. E ele mesmo diz que a intenção dele é que você, leitor, ao virar a página, tema pelo destino das pessoas que estão ali.

Isso vem, em parte, por Martin não ter se inspirado em mitologia ou em épicos antigos, como Tolkien. A grande musa do autor é Clio, a musa grega da História, e a grande referência para os acontecimentos e o cenário é a Guerra das Duas Rosas.

(Ok, ok, meninos. Eu sei que o programa de História das nossas escolas anda um lixo e provavelmente vocês boiaram. Bem, a Guerra das Duas Rosas foi uma disputa pelo poder na Inglaterra no século XV que envolveu duas casas nobres, os Lancaster e os York, representados cada um por uma rosa. A guerra foi consequência direta da guerra dos Cem Anos e alterou o quadro político inglês.)

Foi nessa referência que a série me ganhou e eu comprei o primeiro livro. E não me decepcionei.

Apesar do nome ser pouco conhecido aqui no Brasil, George Martin não é nenhum novato. Começou a escrever no começo da década de 1970, tendo de lá para cá trabalhado com uma grande diversidade de gêneros e de mídias. Suas únicas obras a terem aparecido por aqui foram um conto na edição brasileira da Isaac Asimov Magazine, a telessérie ‘A Bela e a fera’ (ok, crianças, eu conto qual é: uma em que uma policial encontra uma fera vivendo no esgoto de NY) e a adaptação de WildCards para GURPS no suplemento Supers (os livros originais não chegaram a sair por aqui, só uma minissérie de HQs publicadas pela editora Globo – sim, a Globo publicou quadrinhos). Já passou pela FC hard e soft, pela Fantasia Contemporânea/Urbana, pelos Supers…

A melancolia é um traço marcante. E as canções de gelo e fogo também são melancólicas, acentuadas pela aproximação de um inverno que se anuncia longo e cruel. Quatro de seus sete livros já foram publicados – A game of thrones, A clash of kings, A storm of swords e A feast for crows, e o quinto é esperado para breve há quatro anos – A dance with dragons. O primeiro livro saiu em 1996, chamando imediatamente a atenção dos fãs de Fantasia e aos poucos tornando-se um grande sucesso. Os direitos forma vendidos para a HBO que começou as filmagens do episódio piloto no final de 2009.

No continente de Westeros – a tradução portuguesa chamou de Ponente – o Inverno não chega há anos. Porém, começa a dar seus primeiros sinais um pouco antes da morte do rei Robert, que por sua vez tinha tirado o trono das mãos do último rei da dinastia Targaryen. O grande problema é que um dos nobres mais importantes de Westeros, Eddard Stark, desconfia da legitimidade dos filhos do rei  com Cersei Lannister. Essa suspeita dessa bastardia após a morte de Robert faz com que outros pretendentes ao trono aparecem, vindos de outras famílias e com que os antigos aliados do rei tenham que repensar suas estratégias.

Do outro lado do mundo, em outro continente, a filha do último rei Targaryen, sonha com o trono. Daenarys é guiada pela ambição de seu irmão mas logo vê que ele seria incapaz de governar. Mais forte e decidida que ele, assim que se casa com um poderoso chefe de guerra, ela toma as rédeas de sua própria vida e passa a arquitetar a tomada do Trono de Ferro.

E enquanto isso, o vento frio sopra do Norte, fazendo com que os guardas da Muralha – uma imensa estrutura de pedra e gelo, construída com o auxilio de magia – fiquem alertas. Os rumores que os Outros, uma raça antiga e há muito julgada extinta, estejam ativos tornam-se cada vez mais fortes – até que finalmente a verdade surge.

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A narrativa de Martin é seca, direta e – como já dito – tem um grande traço de melancolia. Os personagens são, em sua maioria, extremamente empáticos. Não tem como não se importar com o que vai acontecer com eles, mesmo que seja para torcer por sua desgraça. O anão Tyrrion, que com sua deformação é um contraste a beleza dos seus irmãos, os gêmeos Lannister, teria tudo para ser um vilão odioso, porém é um dos personagens mais cativantes.

E isso faz toda uma diferença.

Para que um personagem literário ganhe vida, é preciso que os leitores sintam o que ele sente. Consigam se colocar no lugar dele e ver o cenário com os seus olhos. Martin faz isso muito bem. Um dos artifícios que usa é o de dar a cada um de seus capítulos um Ponto de Vista diferente. Ao fazer isso, não muda simplesmente o cenário ou o papel de protagonista daquele trecho. O estilo de narrar a história varia de acordo com quem nos traz aquele pedacinho da
história. Assim, quando se junta um escritor competente, um cenário verossímil, uma referência histórica bem estudada e personagens cativantes, não há como não ter uma das melhores sagas de Fantasia jamais escritas ou publicadas.

E sabe o que é melhor ainda?

O primeiro livro da saga, ‘A game of thrones’, vai ser lançado no Brasil no segundo semestre de 2010 pela editora Leya. Ao pensarmos que em 2009 tivemos ‘O nome do vento’ de Patrick Rothfuss e ‘A roda do tempo’ de Robert Jordan chegando aqui, fica mais claro que o mercado editorial brasileiro começa a pensar em sair do infanto-juvenil/bestseller no caso da literatura fantástica. Ainda falta muito para um mundo ideal, como autores clássicos que jamais aportaram por aqui, mas o leitor de Fantasia já pode olhar com otimismo para o futuro.

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Agora, para você, meu colega escritor iniciante:

LEIA o livro do Martin. Sim, Tolkien foi muito importante – e é uma das influências assumidas do autor – porém há mais no mundo da Fantasia do que a Terra Média.

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  1. Ivo Heinz
    3, fevereiro, 2010 em 11:40 | #1

    Legal essa notícia Ana.
    Não sou lá fã de Fantasia, exatamente porque muita coisa que já li tinham as soluções “fáceis’.
    Este, ao menos, está me dando outra impressão e, graças à fama, boa expectativa.

  2. Georgina Guedes
    3, fevereiro, 2010 em 14:02 | #2

    Ah! Enfim descobri q o livro sai no 2° semestre.
    Vamos aguardar

  3. Flávio Medeiros
    3, fevereiro, 2010 em 20:08 | #3

    Bola dentro, Chefa! Deu uma vontade ENORME de ler!

  4. raitoringo
    20, julho, 2010 em 10:04 | #4

    Finalmente vocês poderão ver essa grande e maravilhosa obra no Brasil. Vale muito a pena. Eu já li os 4 livros lançados até o momento em espanhol, e são muito bons e viciantes. Espero muito pelo lançamento de DwD, mas a coisa tá feia ¬¬”

    Só espero que a tradução para o português seja tão boa como é a espanhola, e não saiam “cortando” coisas, ou amenizando vocabularios, a historia perderia muito.

  5. 24, abril, 2011 em 17:51 | #5

    Texto muito legal, só discordo do elemento fantasia, isso exige uma entrega do leitor e logico se vc não faz isso vc não consegue apreciar a obra. Mas Game Of Thrones é legal pelo seu jogo de poder, tem muito personagem cliche, mas a forma como é contada a historia deixa tudo mais interessante.

  1. 3, fevereiro, 2010 em 09:25 | #1
  2. 5, abril, 2010 em 00:09 | #2
  3. 4, março, 2011 em 22:36 | #3