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Presas para que te quero

Vampiros.

Não foi a toa que o Papo na Estante, podcast sobre literatura fantástica, decidiu dedicar duas edições aos sanguessugas. Participei, apesar de alguns poderem ficar surpresos com isso.

Isso é um vampiro que dava medo. O senhor de Ravenloft.

 

Desse vampiro eu tinha medo.

Afinal, quem me conhece – e até quem nem faz ideia de quem eu sou – sabe que eu estou absolutamente saturada de vampiros. Tive minha overdose lá pela década de 1990, quando lia Anne Rice, jogava Vampiro: A Máscara/Ravenloft e comprava até livros teóricos sobre o assunto. Porém, chegou um momento em que simplesmente… encheu o saco. (Blame it on ‘Crônica do Ladrão de Corpos’)

 

Então, não se pode dizer que estou totalmente feliz e satisfeita com a onda vampírica, que anda crescendo a ponto de se tornar um tsunami. Para Ana, a leitora, todos esses vampiros podiam sufocar no seu próprio sangue e morrer de vez. Agora, a escritora-ativista-produtora-editora-organizadora em mim acompanha essa movimentação com muito interesse. Afinal, é sempre algo notável quando a literatura fantástica em sua forma mais pura consegue se destacar nas listas de mais vendidos.

Mas por favor, não considerem que Crepúsculo seja o ressurgimento do mito do vampiro. O jogo de Mark Rein o Hagen não foi, nem as ‘Crônicas Vampirescas’. Mesmo Drácula não fez ressurgir nada. Sim, até creio que deram uma nova roupagem.

Só que os dentuços sempre estiveram por aí. De tal forma que se antropóloga eu fosse, diria ser um mitema. A humanidade sempre teve fascínio com certos assuntos: imortalidade, juventude eterna, crueldade, beleza, sensualidade. Muitos dos mitos que deram origem – ou que hoje nós associamos – aos vampiros tem a ver com alguns desses aspectos, desde os súcubos judaicos até as strix latinas.

 

Mesmo antes de Bram Stocker esculpir uma imagem mais a nosso gosto do sugador de energia/sangue, nossos antepassados europeus viviam com medo de criaturas noturnas. Vejam por exemplo essa reportagem sobre um vampiro no século XVI.

 

 

Sem comentários

 

Sem comentários.

O estouro que o mito teve com a Anne Rice – estouro esse que nunca realmente sumiu, só diminuiu pouco – solidificou de vez o vampiro como uma criatura pop. E cada vez mais, ao invés do medo que os pobres cristãos do século XVI sentiam ao vê-lo, os caçadores noturnos acabam exercendo um grande fascínio – um poder de sedução que coloca até galãs estabelecidos no chinelo. (Isso não quer dizer que qualquer um fica bem como vampiro, ok, Antonio Banderas?)

 

Cada vez mais você vê jovens, adolescentes e senhouras nem tão jovens assim encantadas, doidas para serem mordidas. E o mercado literário acompanha isso.

A mistura ‘sangue-com-açucar’ – ótimo epíteto dado pelo jornalista, crítico e escritor Antonio Luiz M. da Costa para o livro da brasileira Nazarethe Fonseca – cada vez se torna mais popular. Vocês acham que ‘Crepusculo-Lua Nova-Eclipse-Amanhecer-Luscofusco’ é exemplar único?

Rá.

Nem vou falar da série de Charlane Harris, que deu origem a série de tv ‘True Blood’. Há uma infinidade de títulos – alguns classificados como ‘dark fantasy’, outros como fantasia urbana e outros são ‘romances paranormais’, o que engloba todo o livro em que gente e seres sobrenaturais (fantasmas, vampiros, lobisomens) se apaixona/relaciona.

Martha Argel, André Vianco e Giulia Moon.

 

Martha Argel, André Vianco e Giulia Moon.

No Brasil, os vampiros não nos são nada estranhos. O livro da série Necropóle dedicado ao tema é um dos mais vendidos da coleção. Gerson Lodi-Ribeiro criou um vampiro calcado em mitos americanos na sua série do Vampiro de Nova Holanda. E cada vez mais, tem aparecido livros vampirescos de autores brasileiros: André Vianco, Giulia Moon e Martha Argel são bons exemplos. Enquanto o Vianco explora um lado mais ‘testosterona’ dos dentuços, as duas escritores tratam o tema com lirismo, mas sem cair no romance mais adocicado.

 

 

Que é a praia de Nazarethe Fonseca, a escritora mais próxima do Zeitgeist crepuscular que temos por aqui. Com uma boa legião de fãs, a escritora está lançando a terceira edição do seu ‘Alma e Sangue: o despertar do vampiro’, preparando-se para revelar o até agora inédito ‘Alma e Sangue: O império dos Vampiros’. Ambos sairão pela editora Aleph que depois de algum tempo tem voltado a apostar na literatura fantástica nacional. Uma das razões do sucesso da escritora pode ser a escrita fácil, bem digerível por adolescentes fãs dos livros de Stephanie Meyer. Mas não se pode descartar que ao fazer nossos predadores virem parar no Brasil, ela os aproxima do público leitor de uma forma que evoca os mitos presentes no cinema sem desconsiderar a cultura popular.

E tem muito, mas muito mais de vampiro por aí: os livros de Martha Argel e Giulia Moon pela editora Ideia, coletâneas sobre o assunto – uma da Devir, lançada no dia 18/06, outra da Terracota a ser lançada no segundo semestre, etc… Uma boa parte do reaquecimento da literatura fantástica brasileira está se alimentando com sangue.

 

Links

Papo na Estante

Site de Nazarethe Fonseca

Site de André Vianco

Site de Martha Argel

Site de Giulia Moon

Tarja Editorial

Editora Aleph

Ideia Editora

  1. 20, junho, 2009 em 14:13 | #1

    Muito interessante o post. O universo dos vampiros sempre me atraiu a atenção, e agora, como essa nova pororoca vampiresca, vim descobrindo os livros da Anne Rice e André Vianco – graças ao Submarino e suas promoções maravilhosas -, Charlaine Harris e até mesmo os vampiros brilhantina da Stephanie Meyer. É um mito que vai se reinventando com o passar dos anos, e que, como você mesmo disse, fascina por englobar grande parte de todas as características fantásticas que muitas pessoas querem ter. Vejo até as mães das meninas viciadas em Crepúsculo apaixonadas pelo Edward, e isso é meio surreal.

    Mas, bem ou mal, isso acaba incentivando o mercado editorial a investir mais na fantasia – tudo bem que a corrida capitalista pelo número de exemplares vendidos fica acima da qualidade dos escritos, mas isso é assunto pra outro post – e, seguindo a tendência, o mercado brasileiro pode acabar querendo o mesmo que o internacional parece buscar por agora. Só espero que eles não se limitem a presas proeminentes e faces estonteantemente belas.

  2. 21, junho, 2009 em 10:55 | #2

    Oi Ana adorei o texto,acredito que os fãs do Crepúsculo realmente vão gostar da série Alma e Sangue. E antecipadamente já agradeço a vocês que fizeram o podcast do Papo Na Estante.Beijos Mordidos.

  3. Janaynah Queiroz
    21, junho, 2009 em 16:33 | #3

    Olá, Ana. Gostei muito do seu post, mas devo te falar que nessas duas décadas (1990 a 2009) há uma infinidade de livros de vampiros na literatura. Muitos não foram lançados no Brasil ainda. Ainda nem sequer tem tradução em português e todas elas dão uma nova roupagem ao mito dos vampiros.
    A escritora J.R.Ward escreveu um seriado chamado a Irmandade da Adaga Negra, que apresenta uma raça a parte da humanidade e que sobrevive de sangue da própria espécie. São romances açúcares, mas muito bem escrito, com enredo muito bem delimitado. Há muitos outros: Vampire Kisses, Vampire Academy, Morganville Vampire, House of night, Coleção Anita Blake, Dark Hunter e muitos outros (eu inclusive estou tentando catalogar, mas é complicado, é muito grande o acervo desse tema). Há até um anime japonês chamado Vampire Knight.
    Todos reformulando a sua maneira o vampirismo, sua influência na humanidade, comportamento e costumes e muita sensualidade e sexualidade também.
    De qualquer maneira, saturada ou não, há sempre alguém que se sente completamente encantado com os vampiros.

  4. talkativebookworm
    21, junho, 2009 em 16:38 | #4

    Janaynah

    Eu sei que sairam toneladas de livros/animes/mangás sobre vampiros, com temáticas as mais diversas . E que ainda há mercado e vitalidade nesse tipo de literatura.

    Mas eu, enquanto leitora, cansei do mito. O problema é pessoal mesmo.:)

    Uma boa forma de tentar ficar de olho nos lançamentos é acompanhar os anuários de terror e fantasia que saem nos Estados Unidos. Além de trazerem os melhores contos daquele ano segundo os editores, trazem um pequeno resumo dos lançamentos.

  5. talkativebookworm
    21, junho, 2009 em 16:40 | #5

    Lucas,

    É assim: o sucesso da JK Rowling permitiu que a Rocco continuasse lançando vários bons autores brasileiros, que vendem menos e até escrevem melhor. Então, é aquilo: tomara que vendam mesmo. Qto mais melhor:)

  6. talkativebookworm
    21, junho, 2009 em 16:44 | #6

    Oi, Nazarethe!

    É inevitável a associação, mas quem conhece sabe que teus vampiros tão aí há bem mais tempo.

    E minha irmã – que é fã de Crepusculo – já quer um exemplar de ‘Alma e Sangue’, autografado.:)

  7. Lorena
    10, julho, 2009 em 21:57 | #7

    Nossa adorei o post, e os comentarios, não foram agressivos e são agradaveis de ler, eu conhecia Alma e Sangue atraves da minha melhor amiga ( Tauana ) e não conseguimos encontrar em livraria nenhuma na minha cidade e não queriamos comprar pela net, mas na Feira do Livro desse ano achamos e ate ai não tinha lido, comprei e comecei ler na feira mesmo e nao consegui parar, estou esperando Kara & Kmam chegar, antes li A. Vianco, Anne Rice, e Giulia Moon, adorei todos eles, principalmente o André mas os fãs dos livros deles costumam não respeitar as obras em versão “romantica adocicada”… Eu simplesmente adorei Alma e Sangue, nem tenho palavras pra falar… Você foi incrivel Nazarethe!

  8. Carlos Orsi
    17, julho, 2009 em 10:39 | #8

    Sugestão de leitura para tempos de dólar em queda: uma história de vampiros absolutamente original é o romance de hard-sf Blindsight (http://tinyurl.com/msaaob) de Peter Watts. O problema com “absolutamente original” é que isso muitas vezes esvazia o mito de seu apelo, ahn, arquetípico, mas a pegada do Watts é talvez a mais interessante, em termos de ficção científica, desde o “I am Legend” do Matheson.

  9. Camila Fernandes
    26, julho, 2009 em 14:19 | #9

    Oi, Ana!
    Ver uma ativista literária que consegue separar seu gosto pessoal de sua atuação no meio é sempre uma feliz constatação. Eu sempre muito gostei de vampiros… mas não gosto da maioria das histórias que as pessoas têm a contar sobre eles. Durante um bom tempo procurei “minha história definitiva” sobre vampiros, aquela que mexeria de verdade comigo e me deixaria, ao terminar a leitura da última página, aquele vazio que só os livros realmente apaixonantes conseguem nos deixar. O meu lado mais egocêntrico ainda não perdeu a esperança de que eu mesma escreva essa história. 😛

  1. 20, junho, 2009 em 14:31 | #1
  2. 20, julho, 2009 em 02:29 | #2